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Espetáculo de palhaçaria leva arte e cultura popular a três bairros de Cuiabá

A Palhaçaria de Terreiro, enquanto abordagem metodológica, propõe uma perspectiva contracolonial da comicidade, integrando corpo, ancestralidade, musicalidade e saberes tradicionais

Por Valdemar Félix 02/07/2026 às 11:29 4 min de leitura

O espetáculo “Floresta e as pedras pelo caminho” estreia entre esta sexta-feira e domingo (3 e 5.7), em praças culturais dos bairros Parque Cuiabá, Pedra 90 e Jardim Vitória, em Cuiabá. Com música, dança, cantos, ritmos e corporeidade inspirados no imaginário da cultura popular de terreiro, o projeto foi contemplado pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) no edital Viver Cultura – edição Política Nacional Aldir Blanc (Pnab).

Fruto da parceria entre as atrizes e pesquisadoras Ana Carolina de Mello e Antônia Vilarinho, a apresentação segue a abordagem metodológica Palhaçaria de Terreiro, criada por Antônia.

A protagonista é Floresta, palhaça criada por Ana Carolina sob mentoria da maranhense Antônia Vilarinho.

“É uma obra de música, de dança, de alegria. O riso é reza, alegria é o fundamento ancestral. E a Ana traz muito dessa relação dela com a cultura popular, com o maracatu e o slam, além de sua relação com a natureza e do sentimento de pertencimento à terra, à música e à dança. E tudo isso vem ao encontro da metodologia aplicada na criação desse espetáculo”, adianta Antônia.

A Palhaçaria de Terreiro, enquanto abordagem metodológica, propõe uma perspectiva contracolonial da comicidade, integrando corpo, ancestralidade, musicalidade e saberes tradicionais.

“Uma palhaçaria vinculada aos saberes das culturas pretas, especialmente da capoeira angola e das práticas afro-religiosas. Um caminho ancestral para processos criativos”, explica Antônia, que, além de pesquisadora, também é palhaça.

A própria ideia de uma direção centralizada é subvertida neste processo. Antônia não dirige, ela Orí-enta, em referência à Orí, divindade da filosofia iorubá ligada à essência e à consciência de cada indivíduo.

“Dirigir, Orí-entar, é um processo coletivo. Vem do meu aprendizado com religiões de matriz africana, com as comunidades quilombolas, sempre trabalhando com a circularidade, com o coletivo. Então é um trabalho que é feito de muitas mãos. A arte precisa desse cruzamento com outras linguagens, porque a cultura popular é feita dessa mistura”, comenta Antônia.

A montagem do espetáculo teve início em abril, quando o elenco passou por um processo de imersão com Antônia durante uma residência artística em Cuiabá.

“De forma generosa, ela moldou o que tínhamos na linguagem da palhaçaria, mostrou caminhos possíveis de potencializar a corporeidade e a comicidade, valorizando nossa brasilidade”, relata Ana Carolina, que descreve o primeiro encontro com sua mentora, em 2024, como um “divisor de águas, uma peça do quebra-cabeça que faltava, um choque na alma”.

A partir desse primeiro momento em grupo, o processo criativo teve continuidade sem a presença física de Antônia, com destaque para as pesquisas, experimentações e interações entre Ana Carolina e as sonoplastas Mariana Borealis e Lívia Freire, que também estarão em cena com elementos percussivos, canções populares e comerciais selecionadas pelas sonoplastas e canções autorais compostas coletivamente, explorando ritmos do maracatu, do forró e do samba.

Sobre as pedras anunciadas no título, Ana Carolina refletiu sobre todo o processo de construção do espetáculo e de sua própria palhaça.

“O corpo cansado, sobrecarregado de trabalho e treinado para o teatro. A pedra no caminho da Floresta foi me conectar com a escuta interior, ter confiança, driblar o cansaço e sentir a energia para expressar a presença da palhaça e aprender uma nova forma de o corpo se comunicar. ‘A palhaçaria é complexa, uma linguagem da verdade. A ação é o verbo, o verbo é objeto’, aprendi com a mestra Yayá Vilarinho”, revela.

A ideia é que a potência criativa desse fortuito encontro entre as duas se estenda ao público presente.

“Nós, circenses, da cultura popular, da palhaçaria, somos uma família, e quem chega é parte dela. Então o público virá para um momento de celebração, de alegria, de amor e de paz, que é o que estamos precisando neste mundo e nesta vida”, conclui Antônia.

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