Opinião

O feriado que ninguém sabe explicar

Por Valdemar Félix 22/08/2026 às 08:08 2 min de leitura

Existem feriados que todos comemoram, mas poucos sabem explicar.

Descansamos, viajamos, adiamos compromissos, mas quase nunca lembramos a origem da data.

O calendário vai acumulando nomes, santos, heróis, lutas e acontecimentos.

Com o tempo, o significado se apaga, mas o descanso permanece.

Talvez por isso seja bom, de vez em quando, perguntar o que aquele dia realmente representa.

Aos noventa anos, confesso que ainda tenho muito a perguntar sobre certos feriados.

O mês de junho, por exemplo, quase inteiro pertence aos santos festeiros: Santo Antônio, São João e São Pedro.

No primeiro domingo de julho acontece a tradicional festa de São Benedito, que muitos confundem como o padroeiro de Cuiabá.

Na baixada cuiabana, essas festas atravessam junho, julho e às vezes chegam até agosto.

Como era gostoso receber convites para comemorações em bairros distantes ou chácaras iluminadas por fogueiras!

Havia música ao vivo, dança, fogos de artifício, comida da roça e gente animada até a madrugada.

Homens e mulheres vestidos para a festa acompanhavam a procissão do santo no andor, muitas vezes seguidas do banho no rio.

Hoje, essa tradição sobrevive em algumas famílias e comunidades mais antigas.

A igreja continua celebrando seus santos com missas de madrugada, procissões e quermesses.

Meus pais festejavam São Pedro, no dia vinte e nove de junho.

Meu pai levava a imagem do santo até a igreja para a missa.

Depois, em nossa casa da rua do Campo, servia-se chá com bolo e queima de fogos de artifício.

Havia almoço para a família, amigos íntimos e, mais tarde, fogueira acessa no quintal.

Meu pai amava fogos de artifício.

Trazia caixas de tric-trac, foguetes, pistolões, busca-pés, balões e até fósforos de palitos coloridos, que encantavam as crianças.

O mate queimado acompanhado dos bolinhos feitos no forno da cozinha completava a festa.

Tudo terminava vencido pelo cansaço feliz dos convidados.

As festas juninas foram se descaracterizando com o tempo.

Hoje sobrevivem, principalmente, nos pátios das escolas e na lembrança das famílias tradicionais.

Mas basta o cheiro da fogueira ou o estampido de um foguete distante para que junho inteiro volte a viver dentro de nós.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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