Antropoceno

Se existe uma imagem que resume o século 21 é esta: uma projeção feita por Elizabeth Kolbert em A Sexta Extinção. Um paleontólogo do futuro, 100 milhões de anos à frente, escavando as camadas deixadas por nós e se perguntando quem vai dominar a Terra.
A resposta dele: os ratos. Não por genialidade dos roedores. Por causa do homem. A cena resume o maior paradoxo do antropocentrismo. A crença de que o mundo gira em torno do humano.
Que a natureza é recurso. Que podemos extrair, mover e descartar sem consequência. A geologia está dizendo o contrário: tivemos consequência. E ela tem nome, data e camada de rocha. O humano virou época geológica O termo “Antropoceno” foi lançado em 2002 pelo químico Paul Crutzen.
“Não estamos mais no Holoceno. Estamos no Antropoceno”, disse ele em uma reunião científica. O Holoceno começou há 11.700 anos e permitiu a agricultura e as cidades. Para Crutzen, essa estabilidade acabou. O motivo, segundo Kolbert, está na escala: “Por causa dessas emissões antropogênicas, o clima global deve se afastar significativamente do comportamento natural durante vários milênios no futuro”.
Represas, fertilizante nitrogenado, pesca industrial, desmatamento e +40% de CO2 – dióxido de carbono na atmosfera. O geólogo Jan Zalasiewicz levou a discussão adiante. A pergunta era simples: se a humanidade sumisse hoje, o que ficaria?
A resposta: “uma assinatura estratigráfica” legível por milhões de anos. Plástico, concreto, isótopos nucleares e, principalmente, um pico de extinção. Em 2016 o Grupo de Trabalho do Antropoceno recomendou a formalização. Zalasiewicz chegou a levar a proposta à CIS – Comissão Internacional de Estratigrafia. Se aprovada, seria a primeira vez que uma espécie batiza a época em que vive. Só que não foi. Em março de 2024 a proposta foi rejeitada. Oficialmente seguimos no Holoceno.
Na prática, o Antropoceno já é usado em artigos, em relatórios do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU – Organização das Nações Unidas e em decisões climáticas. A Terra mudou. O calendário que não acompanhou. O espelho se chama rato É aqui que Kolbert faz o paralelo mais incômodo.
Ela abre o capítulo “O Grande Rato” com a hipótese do paleontólogo do futuro. E lembra que onde o homem chegou, o rato chegou junto. Polinésios os levaram ao Pacífico. Europeus os espalharam em navios pelo mundo. “Nosso impacto foi de longo alcance e profundo”, escreve. “Mas o impacto dos ratos foi ainda mais direto e palpável.” [p. 114]
O humano abre a porta. O rato ocupa. Derrubamos florestas, criamos cidades, produzimos lixo. O rato só precisa sobreviver. E é ótimo nisso. Generalista, prolífico, resistente. Zalasiewicz vai além e sugere que “a evolução futura provavelmente vai se desenrolar a partir da linhagem antropogenicamente relocalizada”.
Em outras palavras: dos ratos. O homem quis ser protagonista. O rato herdou o palco. O registro que não mente O ponto mais duro do livro é sobre permanência.
“Deixamos um registro que é agora indelével”, afirma Kolbert. Não importa se esquecermos Shakespeare. As rochas vão lembrar. Vão encontrar uma fina camada escura com carbono, plástico e alumínio. E logo abaixo, um vazio: a sexta extinção em massa. O antropocentrismo vendeu a ideia de domínio. A geologia devolveu a ideia de rastro. E o rastro mostra que domínio sem responsabilidade vira autodestruição.
Transformamos entre 1/3 e 1/2 da superfície terrestre. Dobramos o nitrogênio no solo. Mudamos a química dos oceanos em 200 anos. Nenhuma outra espécie fez isso em 4 bilhões de anos. Sair do centro para continuar existindo A Sexta Extinção não é um ataque ao progresso.
É um ataque à arrogância. Somos a única espécie que entende tempo geológico e age como se o amanhã fosse infinito. O rato não tem plano de 5 anos. Ele se adapta. Por isso sobrevive a guerras, fome e cidades abandonadas. Criamos Chernobyl e fomos embora. Eles ficaram.
Se o Antropoceno for oficializado um dia, será um monumento ambíguo. Não ao nosso poder, mas ao nosso impacto. Um aviso em pedra: “aqui viveu uma espécie que mediu o planeta inteiro e escolheu explorá-lo até o limite”.
Talvez a saída seja entender que estar no centro não é ser dono. É ser responsável. O rato não quer dominar o mundo. Ele só quer viver nele. E por não querer dominar, provavelmente vai conseguir. Nós quisemos ser deuses. Vamos terminar como camada. A escolha agora é se essa camada será também a última.
José Antônio Borges Pereira é procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso


