Potência de vida em meio à dor

Quando passamos por uma grande dor existencial, temos estas possibilidades diante de nós: ou nos tornamos seres ainda mais sensíveis e compassivos, aprofundando o olhar para dentro de nós mesmos, ou nos endurecemos como uma pedra e perdemos o caminho do coração.
Quem somos nós diante da perda, quando a vida nos retira quem amamos?
Ao petrificar-se, o coração fecha-se ao amor, rompe o elo com o sagrado de sua interioridade e exila a alma. Viver desconectado dessa dimensão mais profunda do ser e de tudo o que ela representa é cindir a unidade entre corpo, mente e espírito, perdendo o sentimento de inteireza que sustenta o equilíbrio interior.
No meu caso, pela própria trajetória espiritual que percorri, a insondável dor de uma mãe ao sepultar sua filha abriu passagem direta para uma dimensão do mundo interior muito além das camadas superficiais da mente: um lugar do ser onde tudo é silêncio e Mistério.
Meu olhar voltou-se por inteiro para dentro e adentrei o silêncio do campo da alma, onde encontrei estes dizeres bíblicos: “Por tudo, dai graças.”
À luz da tradição sufi, essa mesma compreensão pode ser assim enunciada: “Aceite a vida do jeito que ela é”. Isso não quer dizer conformismo ou passividade, mas o reconhecimento lúcido da realidade tal como se apresenta, por mais árdua que seja, em estado de total presença, sem recorrer a qualquer forma de fuga ou anestesiamento da experiência da dor.
Requer permanecer consciente, alerta, aceitar a dor em toda a sua profundidade, desde o primeiro momento.
Essa condição interna expande a consciência e nos concede a força emocional e espiritual necessária para a travessia das grandes dores da existência.
Estar na vida com o coração, orientando-se pela compreensão da natureza da existência e sem se identificar com a mente e suas reações, altera radicalmente a forma como enfrentamos os desafios do viver.
A mente é de natureza insatisfeita, inquieta, e extremamente reativa, sempre encontrando motivos para reclamar e alimentar medos e ilusões. O coração, por sua vez, quando não obscurecido, é naturalmente grato e corajoso.
Hoje, mais do que nunca, valorizo e agradeço a Deus pelos momentos simples do cotidiano, que me conectam ao estado de paz e contentamento interior: respirar de forma profunda e relaxada; em dias solares, olhar para o alto e deixar-me tomar pela imensidão do céu azul; contemplar a beleza do amanhecer ou do pôr do sol; admirar a delicadeza de uma flor do mato que brota em meu quintal; ouvir o canto dos pássaros em suas preces matinais.
E o que dizer, então, do sorriso de uma criança inocente? Por um instante, seu rosto iluminado pela alegria entra na alma como um bálsamo e parece dissipar toda tristeza.
Como permanecer indiferente à beleza que atravessa os olhos e toca o coração, inclusive em suas partes feridas?
Como impedir que a força da vida, em seu eterno fluir, continue pulsando em mim? Para quem enfrenta a dor de morte com potência de vida, tudo pulsa.
Hoje, posso confirmar a verdade destas palavras do Mestre sufi Kiran Kanakia:
“O buscador nunca é miserável.”
Namastê!
Enildes Corrêa é professora de Yoga, orientadora de meditação, cronista e palestrante.


