Opinião

Os cinco pilares da longevidade feminina: o que aprendi em décadas de consultório

Por Eder Pereira 01/07/2026 às 14:27 6 min de leitura

Ao longo de mais de vinte e cinco anos de consultório, percebi que muitas mulheres chegam até mim fazendo perguntas diferentes, mas buscando a mesma resposta.

Algumas dizem que não conseguem mais dormir como antes. Outras reclamam que ganharam peso sem mudar a alimentação. Há quem fale da perda da libido, da falta de disposição ou da dificuldade de concentração. E existe uma frase que escuto com frequência: “Doutora, parece que deixei de ser eu.”

Durante muito tempo, essas queixas eram tratadas de forma isolada. Cada sintoma recebia uma explicação, um exame ou um medicamento. Hoje, tanto a experiência clínica quanto os estudos mais recentes mostram que isso não basta. A mulher precisa ser olhada como um todo.

Envelhecer com saúde não depende de um único fator. É o resultado de um conjunto de cuidados que se complementam. Costumo resumir esse caminho em cinco pilares que, na prática, caminham lado a lado.

O primeiro deles é o equilíbrio hormonal.

A menopausa nunca foi apenas o fim da menstruação. Ela representa uma mudança importante em todo o organismo. A redução dos hormônios influencia a saúde óssea, o coração, o metabolismo, o cérebro, a qualidade do sono, o humor e até a forma como o corpo responde aos exercícios físicos.

É por isso que não gosto de tratar essa fase apenas como um problema ginecológico. Estamos falando de saúde e qualidade de vida para as próximas décadas.

Também é importante lembrar que não é apenas o estrogênio que muda. A testosterona feminina também diminui com o passar dos anos e pode interferir na disposição, na força física e no desejo sexual. Ao mesmo tempo, alterações na insulina e no cortisol, muitas vezes provocadas pelo estresse e pelos hábitos de vida, tornam esse cenário ainda mais complexo.

Por isso, não existe uma solução única para todas as mulheres. Cada organismo envelhece de uma maneira.

O segundo pilar costuma surpreender muitas pacientes: a preservação da massa muscular.

Existe uma ideia antiga de que musculação serve apenas para fins estéticos. Isso está muito longe da realidade.

Os músculos participam do controle da glicemia, ajudam na saúde óssea, protegem as articulações, favorecem o equilíbrio e mantêm a independência ao longo da vida.

Sabemos que a perda de massa muscular começa de forma gradual por volta dos 40 anos. Nas mulheres, esse processo tende a acelerar durante a menopausa por causa da queda hormonal. Quando não há estímulo adequado, essa perda pode comprometer força, mobilidade e autonomia nos anos seguintes.

Hoje sabemos que preservar músculos significa preservar saúde.

Por isso, o treino de força deixou de ser uma recomendação voltada apenas para quem deseja mudar o corpo. Ele passou a fazer parte das principais estratégias de prevenção do envelhecimento saudável.

O terceiro pilar está diretamente ligado à alimentação.

Nenhum tratamento consegue compensar, diariamente, uma rotina alimentar que favoreça inflamação, resistência à insulina e perda muscular.

Isso não significa viver de dieta ou eliminar todos os prazeres da mesa. Significa fazer escolhas que trabalhem a favor do organismo.

Uma alimentação rica em verduras, frutas, legumes, proteínas de boa qualidade, fibras e gorduras saudáveis ajuda a controlar o peso, preservar músculos e contribuir para o equilíbrio hormonal. Em contrapartida, o excesso de alimentos ultraprocessados, açúcar e bebidas alcoólicas pode intensificar sintomas que muitas mulheres atribuem exclusivamente à menopausa.

Depois dos 40 anos, cada refeição passa a ter um impacto maior sobre a saúde futura.

O quarto pilar ainda é cercado por silêncio: a saúde íntima.

Ressecamento vaginal, dor durante a relação, alterações urinárias e desconfortos diversos são muito mais comuns do que se imagina. Ainda assim, muitas mulheres passam anos convivendo com esses sintomas por vergonha ou por acreditarem que tudo isso faz parte da idade. O que não é verdade.

Essas alterações têm explicação, têm tratamento e merecem atenção. O próprio assoalho pélvico é formado por músculos e também sofre os efeitos do envelhecimento e da queda hormonal.

Quanto mais cedo essa conversa acontece, maiores são as possibilidades de prevenção e tratamento.

Por fim, existe um pilar que não aparece nos exames laboratoriais, mas faz toda a diferença: a saúde emocional.

As mudanças hormonais podem favorecer ansiedade, alterações de humor, dificuldade de memória e sensação de perda de identidade. Não é raro que a mulher deixe de reconhecer o próprio corpo e passe a questionar sua autoestima.

Nessa fase, cuidar da saúde mental é tão importante quanto acompanhar os exames.

Terapia, atividade física, relações saudáveis, momentos de lazer e uma boa rede de apoio não são detalhes. São parte fundamental do tratamento.

Depois de tantos anos ouvindo histórias, acompanhando trajetórias e vendo mulheres redescobrirem a própria vitalidade, aprendi que esses cinco pilares não funcionam separadamente.

Quando os hormônios estão equilibrados, fica mais fácil preservar músculos. A musculatura melhora o metabolismo. Um metabolismo saudável facilita o controle do peso e contribui para o bem-estar emocional. A saúde íntima acompanha esse processo, e a qualidade de vida melhora de forma consistente.

A medicina evoluiu muito nos últimos anos. Hoje temos mais conhecimento, mais evidências e tratamentos mais seguros do que tínhamos há algumas décadas. Mas talvez o maior avanço tenha sido compreender que nenhuma mulher pode ser reduzida a um sintoma.

Envelhecer faz parte da vida. Envelhecer com saúde depende das escolhas que fazemos ao longo do caminho e do cuidado que recebemos quando essas mudanças começam a aparecer.

Na minha experiência, a longevidade não é construída apenas com exames, medicamentos ou procedimentos. Ela nasce da soma de pequenos hábitos, de acompanhamento individualizado e da compreensão de que cuidar da mulher é cuidar de todas as dimensões da sua saúde.

E é justamente isso que faz com que viver mais também signifique viver melhor.

Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+ e em longevidade.

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