Névoa mental, o que acontece na Menopausa

Era uma terça-feira comum. Ela estava no meio do supermercado, lista na mão, quando percebeu que não lembrava mais por que tinha ido até aquele corredor. Voltou para o carrinho. Tentou retomar o raciocínio. Nada. Depois, já em casa, ficou parada na frente do fogão sem conseguir lembrar se tinha ou não apagado o forno, e foi conferir três vezes. “Não sou mais eu”, me disse na consulta seguinte. Tinha 49 anos, era engenheira, dormia mal fazia meses, e estava convicta de que algo grave acontecia com sua cabeça.
Não era grave, no sentido que ela temia. Era névoa mental, uma das queixas mais frequentes entre as mulheres que chegam ao meu consultório nessa fase da vida, e também uma das mais invisíveis. Invisível para a medicina, que por muito tempo a ignorou. E invisível para as próprias mulheres, que tendem a se culpar por distração ou cansaço antes de cogitar qualquer causa hormonal.
O que é, exatamente, essa névoa?
O termo em inglês, brain fog, traduz com precisão a experiência: não é que a cabeça para de funcionar, é que ela passa a operar como se houvesse uma camada de névoa entre o pensamento e a ação. A mulher sabe o que quer dizer, mas a palavra não vem. Ela se lembra de entrar num cômodo, mas não do motivo. Perde o fio no meio de uma frase. Tem dificuldade para se concentrar em leituras que antes absorvia facilmente. Sente que a memória de curto prazo, especialmente, ficou menos confiável.
Do ponto de vista clínico, estamos falando de alterações nas funções executivas, memória de trabalho, atenção sustentada, velocidade de processamento. Não é psicológico, não é frescura. É fisiológico.
“O cérebro não é poupado pela queda hormonal da menopausa. Ele é um dos primeiros órgãos a sentir.”
O papel do estrogênio no cérebro
O estrogênio tem receptores distribuídos por todo o sistema nervoso central, no hipocampo, estrutura central da memória; no córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio; e em regiões que regulam humor e atenção. Ele estimula a produção de acetilcolina, neurotransmissor fundamental para a memória, regula serotonina e dopamina, e tem efeito anti-inflamatório sobre o tecido cerebral. Quando esse hormônio começa a oscilar, como ocorre de forma progressiva na perimenopausa, o cérebro literalmente sente a diferença.
Há ainda o efeito indireto que poucos associam à névoa mental: o sono. A queda do estrogênio e da progesterona está diretamente ligada às insônias e aos despertares noturnos. Um sono fragmentado por meses produz exatamente os sintomas cognitivos que as pacientes descrevem, o cérebro privado de sono não consolida memórias nem processa informação com eficiência.
O que fazer
A primeira coisa é nomear. Quando a paciente entende que o que está vivendo tem nome, tem causa e tem abordagem, há um alívio imediato, e ela para de se culpar. A segunda é investigar de forma ampla: hormônios, tireoide, vitamina D, B12, ferro e qualidade do sono.
A terapia hormonal, quando bem indicada e iniciada no momento certo, é hoje uma das intervenções com maior evidência para a preservação da saúde cognitiva feminina. Não é uma decisão a ser tomada por impulso nem recusada por medo antigo. É uma conversa médica individualizada, e ela pode fazer toda a diferença.
Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+


