Redeiras do Limpo Grande ganham projeção nacional com apoio de editais da Secel
A transformação começou com a criação da Associação das Redeiras de Limpo Grande (Tece Arte), fundada em 2021

A tradição centenária das redeiras do distrito de Limpo Grande, em Várzea Grande, vem conquistando espaço em importantes vitrines da moda e da economia criativa brasileira graças ao apoio de editais e programas desenvolvidos pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT). O trabalho artesanal, transmitido de geração em geração, deixou os quintais da comunidade rural para alcançar reconhecimento nacional e ampliar as oportunidades de renda para dezenas de famílias.
A transformação começou com a criação da Associação das Redeiras de Limpo Grande (Tece Arte), fundada em 2021 por um grupo de mulheres preocupadas com a preservação de uma técnica tradicional herdada dos indígenas da etnia Guanás. Atualmente, a entidade reúne 53 artesãs e se tornou referência na valorização do patrimônio cultural mato-grossense.
Segundo a presidente da associação, Jilaine Maria da Silva Brito, a formalização do grupo foi fundamental para evitar que a tradição desaparecesse. Antes da organização coletiva, muitas mulheres haviam deixado de produzir devido à falta de mercado consumidor. Em alguns casos, uma única rede levava até um ano para ser vendida.
Com a participação em editais da Secel, especialmente no programa de aceleração MOV_MT, a realidade mudou significativamente. A iniciativa possibilitou intercâmbios, capacitações e conexões com profissionais do setor criativo, ampliando a visibilidade das artesãs e gerando novas oportunidades comerciais.
Uma das experiências mais marcantes ocorreu durante um intercâmbio no Rio de Janeiro, quando Jilaine conheceu a estilista Isabela Capeto. A parceria resultou na produção de bolsas artesanais desenvolvidas especialmente para a marca da estilista, alcançando grande aceitação no mercado.
O reconhecimento abriu portas para novas colaborações. As redeiras também passaram a trabalhar com o estilista Amir Slama, levando pela primeira vez a técnica tradicional do Limpo Grande para a São Paulo Fashion Week, uma das maiores passarelas de moda da América Latina.
Além da projeção nacional, o crescimento da associação impactou diretamente a renda das artesãs. Enquanto anteriormente eram comercializadas cerca de dez redes por ano, em 2025 o grupo vendeu aproximadamente 80 peças, além de bolsas, xales, saídas de banho, biquínis e outros produtos artesanais. As redes podem alcançar valores entre R$ 2,3 mil e R$ 5,5 mil, contribuindo para melhorar a qualidade de vida das famílias envolvidas.
Outro avanço importante foi a aprovação em um edital voltado à elaboração de um inventário cultural. O projeto permitirá a criação de um acervo digital reunindo registros da técnica, depoimentos, vídeos, fotografias e informações sobre o processo de produção das peças, contribuindo para a preservação e difusão do conhecimento tradicional.
A técnica utilizada pelas artesãs é conhecida como tecelagem em ponto cheio, característica por não apresentar diferença entre frente e verso da peça. Os desenhos retratam principalmente elementos do Pantanal mato-grossense, como araras, tucanos e outras referências da fauna regional.
Para a superintendente de Desenvolvimento da Economia Criativa da Secel-MT, Keiko Okamura, os resultados demonstram o potencial das políticas públicas voltadas ao setor. Segundo ela, programas como o MOV_MT promovem desenvolvimento econômico sustentável, fortalecem comunidades e valorizam a cultura local.
Com a crescente visibilidade, a Associação das Redeiras de Limpo Grande já planeja novos desafios. Entre os objetivos estão a ampliação da comercialização para mercados internacionais, com apoio da ApexBrasil, e a estruturação do distrito como destino de turismo cultural, permitindo que visitantes conheçam de perto uma tradição única de Mato Grosso.
Mais do que preservar uma técnica artesanal, o trabalho das redeiras tem fortalecido a identidade cultural da comunidade, gerado renda e criado novas perspectivas para mulheres que transformam fios, histórias e tradição em peças reconhecidas dentro e fora do Estado.


