Saúde Pública

Pesquisa aponta baixa incidência do HTLV entre doadores de sangue em Mato Grosso

O HTLV é um retrovírus da mesma família do HIV e infecta os linfócitos T, células responsáveis pela defesa do organismo

Por Eder Pereira 30/05/2026 às 17:00 4 min de leitura

Um estudo realizado por pesquisadores de Mato Grosso identificou baixa prevalência do Vírus Linfotrópico de Células T Humanas tipos I e II (HTLV-I/II) entre doadores de sangue atendidos pelo MT Hemocentro. A análise avaliou 60.568 amostras coletadas entre janeiro de 2018 e agosto de 2021 e constatou uma taxa de infecção de 0,10%, percentual semelhante ao registrado em hemocentros da região Sudeste do país.

A pesquisa busca ampliar a precisão da detecção molecular do HTLV-1/2 em Mato Grosso por meio da avaliação da carga pró-viral em amostras de doadores de sangue. O trabalho é desenvolvido em parceria com o Laboratório Central de Saúde Pública de Mato Grosso (Lacen-MT) e o Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM), referência no acompanhamento de doadores com sorologia positiva para o vírus.

O HTLV é um retrovírus da mesma família do HIV e infecta os linfócitos T, células responsáveis pela defesa do organismo. Na maioria dos casos, a infecção permanece silenciosa por anos sem provocar sintomas. Entretanto, uma pequena parcela dos infectados pode desenvolver doenças graves, principalmente relacionadas ao sistema nervoso e ao sangue.

Entre as complicações associadas ao vírus estão a Paraparesia Espástica Tropical, enfermidade neurológica que compromete os movimentos das pernas, e a Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto, um tipo raro e agressivo de câncer sanguíneo. O HTLV também pode estar relacionado a inflamações oculares, dermatites e maior vulnerabilidade a outras infecções.

Dos mais de 60 mil exames analisados, 63 apresentaram resultado positivo para HTLV-I/II. O ano de 2020 registrou a maior frequência de casos, com índice de 0,16% entre os doadores.

O perfil predominante entre os casos positivos foi de mulheres com idade entre 31 e 45 anos, pardas, com ensino médio completo e atuação profissional na iniciativa privada. O levantamento também identificou coinfecções com outras doenças transmissíveis por transfusão sanguínea, como hepatite B, sífilis, HIV e hepatite C.

Para a detecção dos anticorpos contra o HTLV-I/II, os pesquisadores utilizaram a técnica de quimioluminescência automatizada, método amplamente empregado em bancos de sangue por sua elevada sensibilidade e especificidade.

Apesar da baixa prevalência encontrada, os pesquisadores ressaltam a importância da vigilância epidemiológica contínua e da ampliação de estudos sobre o vírus no Estado. Segundo eles, o monitoramento contribui para o fortalecimento das políticas de segurança transfusional e para o aperfeiçoamento das estratégias de prevenção.

O estudo também reforça a importância do rastreamento sorológico nos hemocentros brasileiros, considerado essencial para reduzir o risco de transmissão do vírus e ampliar o conhecimento sobre sua circulação silenciosa na população.

A pesquisa é coordenada pelo professor e pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Ruberlei Godinho de Oliveira, e conta com financiamento do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat).

De acordo com os pesquisadores, os testes de triagem em bancos de sangue são obrigatórios no Brasil desde 1993 e representam uma etapa fundamental para garantir a segurança das transfusões, além de permitir o encaminhamento dos casos positivos para acompanhamento especializado na rede pública de saúde.

O trabalho também contribui para a formação de novos especialistas na área. Os resultados foram publicados na revista científica Epidemiologia e Serviços de Saúde (RESS) e integram estudos desenvolvidos no Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas à Atenção Hospitalar do Hospital Universitário Júlio Müller.

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