O vazio que agride

Ontem, como de costume há décadas, religiosamente no mesmo horário, o bar da esquina teve suas portas reabertas. As mesas estavam distribuídas em um espaço amplo e arejado.
O salão se encontrava um tanto distanciado do balcão, localizado mais ao fundo e à direita. Mais à esquerda, havia um acanhado, mas acolhedor jardim, com seus jogos de flores variadas e, entre estas, a flor de lótus – um lírio d’água – que, mesmo quando suas pétalas se fecham e se mantêm reclusas, jamais perde o seu fascínio. Fascínio que atrai e seduz.
Vários, talvez dezenas ou, quem sabe, centenas – já que ninguém os catalogou – de enamorados tiveram seus primeiros contatos, trocas de olhares, sorrisos aconchegantes justamente naquele ambiente.
Tudo acontecia em meio ao barulho do líquido despejado, ao ruído do dedo molhado escorregando na borda do copo, ou às vozes que se misturavam ao som saído das cordas do solitário violão.
Ainda que tenha havido desentendimento e até, em um ou outro caso, separação. Também não foram poucos os negócios iniciados entre taças ou copos de bebidas. Daí a sua importância para todos que o procuravam, como ponto de encontros e reencontros.
Naquela tarde-noite, contudo, logo na entrada, o bar trazia uma enorme placa, com os seguintes dizeres: ‘clientes de matiz política adversa não são mais bem-vindos’.
Isso foi um choque, tanto pelo sentido que resulta destas palavras, quanto pelo que cada uma delas representa. Representam uma afronta, pois configuram prática abusiva (sujeito a penalidade) à luz do Código do Consumidor e dos princípios constitucionais da igualdade e da dignidade humana. Além do mais, escancaram um tratamento discriminatório, preconceituoso, não cavalheiresco, agressivo e nocivo à convivência. alimentador da violência.
Não de uma violência qualquer, nem despercebida, pois reforça o que há de mais covarde, mesquinho e abominável: a intolerância. O ser intolerante agride de morte a liberdade. Não apenas a de outrem, mas também a de si mesmo. Isso porque, no canteiro onde germina a intolerância, jamais poderá brotar e crescer a compaixão, o espírito humanitário.
Mesmo que aquele venha autoproclamar-se ‘cidadão de bem’, religioso de carteirinha, frequentador assíduo de templos e carregue no dia a dia, debaixo do braço, um livro sagrado (Alcorão, Torá, Vedas, Tripitaca, Bíblia, etc.).
Até porque a verdadeira essência do espírito humanitário e da compaixão reside na prática diária do respeito. Não apenas com retórica, ou boa intenção, ou palavras vazias.
Palavras vazias são ocas, nada dizem, ainda que sejam floreadas ao dizê-las, ou ditas com a voz empostada. Ou de mansinho, como se quisesse vender o que não possui, e cobrar de outro o que não oferece.
Respeito é uma via de mão dupla. Assim como o é o direito, o qual sempre estará de mãos dadas com o dever. Exigência do viver em comunhão. Este pressupõe interesses comuns – ao menos os básicos. São estes os tijolinhos do soerguimento da Nação.
Daí o ‘pluralismo político’ (art. 1º., V, da CF) como um dos fundamentos do Estado, somado ao princípio de que ‘ninguém será privado de direitos por convicção política’ (art. 5º., VIII, da CF). É isto.
Lourembergue Alves é professor universitário


