Juros altos levam brasileiros a recorrer a consórcios para reformas e até saúde
Com custo mais caro do crédito em razão da Selic elevada, brasileiros estão mudando a forma de financiar projetos pessoais

Brasileiros estão mudando a forma de financiar projetos pessoais diante do cenário de juros elevados e crédito caro no País. Reformas, viagens, intercâmbios e até procedimentos de saúde estão entre os objetivos que vêm sendo planejados por meio de consórcios de serviços, modalidade que vem crescendo no Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC).
No ano passado, a diferença entre consórcio e crédito foi pequena. As vendas de cotas de consórcios de serviços cresceram 16,9%, enquanto os créditos comercializados avançaram 26,1%. O movimento mostra que, com a Selic elevada, que encarece as linhas tradicionais de crédito, os consumidores avaliam alternativas para viabilizar projetos de médio e longo prazo.
Ricardo Hiraki, especialista em finanças e CEO e cofundador da Plano Fintech, explica que os juros elevados, atualmente em 14% ao ano, mesmo após o Banco Central (BC) iniciar o ciclo de cortes, aumentam a atratividade relativa dos consórcios para quem não precisa do dinheiro imediatamente. Segundo Hiraki, a principal diferença está na estrutura de custos.
“O consórcio, por não envolver empréstimo de dinheiro nem cobrança de juros, apenas taxa de administração diluída ao longo do prazo, passa a ser comparativamente mais atrativo nesse cenário. O consumidor troca a certeza da posse imediata pela vantagem de um custo mensal mais previsível e, em geral, mais baixo”, afirma Hiraki.
Na avaliação de Thiago Guerra, vice-presidente comercial do Consórcio Embracon, uma das maiores administradoras independentes de consórcios do Brasil, o avanço está ligado a um consumidor mais atento ao planejamento financeiro e à realização de objetivos de médio e longo prazo.
“O consórcio atua como uma alternativa de crédito complementar às opções disponíveis no mercado. A escolha da modalidade depende do momento de vida, dos objetivos e do prazo de cada pessoa. Para quem não tem urgência e consegue se organizar financeiramente, a carta de crédito pode ser uma ferramenta importante para viabilizar projetos e contratar serviços com maior poder de negociação.”
Entre os principais destinos dos recursos, obras e reformas residenciais concentram 75,5% da demanda por consórcios de serviços, segundo levantamento da ABAC. Na sequência aparecem turismo e saúde, ambos com participação de 1,6%, abrangendo desde viagens até procedimentos estéticos. Também aparecem entre as finalidades procuradas educação, com destaque para programas de intercâmbio (0,5%), festas de casamento (0,4%) e tratamentos odontológicos (0,3%).
Juciel Oliveira, fundador e CEO da Monteo, afirma que a expansão da modalidade de consórcio está relacionada à possibilidade de o consumidor planejar uma despesa em vez de assumir uma dívida imediatamente. “Existe uma lógica muito simples: quanto mais caro fica o dinheiro, mais valioso fica o planejamento. Quando os juros sobem, empréstimos e financiamentos pesam mais no bolso. E o consumidor começa a procurar alternativas.”
Para Oliveira, os juros altos não são o único fator por trás do crescimento, mas ajudam a acelerar uma mudança na relação dos consumidores com o crédito. “Se você não precisa realizar aquele projeto amanhã, pode se planejar para realizá-lo sem pagar os juros de uma operação de crédito tradicional. Por isso, acredito que os juros altos não explicam sozinhos o crescimento do consórcio, mas aceleram uma mudança de comportamento: o brasileiro começa a perceber que nem tudo precisa ser comprado com urgência e dívida.”
COMO FUNCIONA O CONSÓRCIO
Na prática, o consórcio funciona por meio da formação de grupos de consumidores que contribuem mensalmente para um fundo comum. Os participantes recebem a carta de crédito conforme são contemplados, o que pode ocorrer por sorteio ou lance.
Diferentemente de um financiamento, o consumidor não recebe necessariamente o recurso assim que assina o contrato. A vantagem está na possibilidade de planejar a aquisição ou contratação do serviço sem os juros tradicionais de uma operação de crédito, embora existam taxas e outros custos previstos no contrato.
“O consórcio é, na essência, uma forma de comprar melhor para quem pode comprar com tempo. Um grupo de pessoas contribui mensalmente para formar um fundo comum. Todos os meses acontecem as contemplações, por sorteio ou lance, e o contemplado passa a ter acesso ao crédito contratado”, explica Oliveira.
O modelo também permite diferentes usos. Além dos consórcios de serviços, tem os de imóveis e veículos. Após a contemplação, a carta de crédito pode ser utilizada para pagar o serviço contratado. Como o pagamento ao fornecedor é feito à vista, o consumidor também pode ter maior poder de negociação, segundo os especialistas.
CONSÓRCIO X CRÉDITO TRADICIONAL
Apesar das vantagens, os especialistas alertam que o consórcio não deve ser tratado automaticamente como uma opção mais barata e vantajosa. É preciso considerar todos os custos envolvidos e, principalmente, o tempo de espera até a contemplação.
“Não é uma regra absoluta, e é aqui que mora o cuidado que o consumidor precisa ter”, afirma Hiraki. Segundo ele, devem entrar na conta a taxa de administração, o fundo de reserva, a correção do saldo devedor e eventuais custos relacionados ao lance.
“As parcelas são corrigidas por um índice (em geral, o INCC para imóveis ou o IPCA/IGP-M para veículos), o que pode elevar o valor total pago dependendo da inflação do período”, explica.
Outro fator é o custo de oportunidade. Para quem precisa do bem ou serviço imediatamente, esperar pela contemplação pode representar uma desvantagem financeira.
“O custo de oportunidade de não ter o bem imediatamente também é uma variável. Para quem precisa do bem para gerar renda, esperar pode sair mais caro do que pagar juros mais altos”, afirma Hiraki.
Oliveira resume a diferença entre as modalidades em dois fatores: tempo e custo. “No empréstimo, você paga para ter o dinheiro agora. No consórcio, você abre mão dessa previsibilidade imediata em troca de uma estrutura diferente de custo, sem os juros típicos do crédito tradicional, embora existam taxas.”
Para ele, não existe uma modalidade que seja necessariamente melhor para todos os consumidores. “Se você tem urgência, crédito pode fazer sentido. Se você tem tempo, planejamento pode valer muito dinheiro. No final, a melhor decisão financeira não é simplesmente conseguir comprar. É entender quanto custa comprar e quanto custa ter pressa.”


