Opinião

Expandir os CAPS é salvar vidas

Por Valdemar Félix 10/07/2026 às 08:07 5 min de leitura

Ocupo hoje este espaço para tratar de um tema que não pode mais permanecer invisível. Falo da saúde mental dos mato-grossenses.

Falo das famílias que convivem diariamente com a depressão, a ansiedade, a esquizofrenia, o transtorno bipolar, a dependência química, o sofrimento psíquico e, muitas vezes, com a dor irreparável provocada pelo suicídio.

Durante muito tempo acreditou-se que saúde mental era um problema individual.

Hoje sabemos que é um dos maiores desafios da saúde pública brasileira.
E Mato Grosso precisa enfrentar essa realidade com coragem.

Nosso Estado possui uma das maiores extensões territoriais do Brasil. São 142 municípios distribuídos em quase 904 mil quilômetros quadrados. Mas essa grandiosidade territorial contrasta com uma realidade preocupante: 635 mil de mato-grossenses ainda vivem em regiões onde simplesmente não existe acesso adequado aos serviços especializados de saúde mental.

São 92 municípios (64% do total), que não contam com nenhum ponto da RAPS ou possuem estrutura condizente com o padrão mínimo esperado em termos de cobertura dos serviços de saúde mental.

Esse é o chamado vazio assistencial. Um vazio que significa distância. Um vazio que significa demora. Um vazio que significa abandono. E, muitas vezes, um vazio que custa vidas.

Imaginem uma mãe procurando atendimento para um filho em crise psiquiátrica. Imaginem uma família que precisa viajar centenas de quilômetros porque seu município não possui um CAPS. Imaginem um idoso com depressão grave, uma mulher vítima de violência doméstica, um adolescente em sofrimento emocional ou um trabalhador acometido por ansiedade severa sem encontrar atendimento próximo de sua casa.

Essa não é apenas uma dificuldade administrativa. É uma violação ao direito constitucional à saúde.

Os Centros de Atenção Psicossocial – os CAPS – representam hoje a principal porta de entrada para o cuidado especializado em saúde mental no Sistema Único de Saúde.

São serviços comunitários, humanizados e multiprofissionais, que substituem a lógica exclusivamente hospitalar por um modelo baseado no acolhimento, no tratamento contínuo e na reinserção social das pessoas.

A Rede de Atenção Psicossocial integra ainda outros dispositivos, como serviços residenciais terapêuticos, unidades de acolhimento e leitos especializados, formando uma rede de cuidado articulada.

Mas precisamos reconhecer uma verdade.

Nossa rede ainda não acompanha as necessidades da população. Existem regiões inteiras de Mato Grosso onde o acesso é insuficiente.

Municípios pequenos dependem de cidades polo. Pacientes aguardam atendimento especializado. Profissionais trabalham sobrecarregados. As famílias enfrentam enormes dificuldades para conseguir assistência.

E enquanto a estrutura não cresce, cresce também a demanda. Os transtornos mentais aumentaram significativamente nos últimos anos. A pandemia deixou sequelas emocionais profundas. A violência doméstica produz traumas.

O uso abusivo de álcool e outras drogas desafia nossas comunidades. Crianças e adolescentes apresentam índices crescentes de ansiedade, depressão e automutilação. Idosos enfrentam isolamento e sofrimento emocional.

Essa realidade exige respostas rápidas. Investir em saúde mental não é apenas uma decisão humanitária. É também uma decisão inteligente.

Quando uma pessoa recebe atendimento precoce em um CAPS, diminuem as crises, reduzem-se as internações, evitam-se afastamentos do trabalho, fortalecem-se os vínculos familiares e reduz-se a sobrecarga sobre hospitais e unidades de urgência.

Cada CAPS implantado significa prevenção. Cada equipe fortalecida significa dignidade. Cada atendimento realizado representa uma oportunidade de devolver esperança a uma família inteira.

Por isso, defendo que Mato Grosso estabeleça uma grande estratégia estadual de expansão da Rede de Atenção Psicossocial.

Precisamos ampliar o número de CAPS nas regiões atualmente desassistidas. Precisamos fortalecer os CAPS existentes, garantindo equipes completas e financiamento adequado.

Precisamos expandir os CAPS Infantis para atender nossas crianças e adolescentes. Precisamos ampliar os CAPS Álcool e Drogas para enfrentar o crescimento da dependência química.

Precisamos utilizar a telemedicina para garantir apoio especializado às regiões mais distantes. Precisamos integrar a atenção básica, os hospitais, os CAPS, a assistência social, a educação e a segurança pública em uma verdadeira rede de cuidado.

Precisamos investir na qualificação permanente dos profissionais. Precisamos construir uma política estadual capaz de reduzir as desigualdades regionais no acesso à saúde mental.

Esse não é um desafio apenas da Secretaria de Saúde. É uma responsabilidade de todo o estado. Porque saúde mental dialoga com educação, assistência social, trabalho, segurança pública e desenvolvimento humano.

Quando falamos em CAPS, não estamos falando apenas de prédios. Estamos falando de pessoas. Estamos falando de filhos. De pais, de mães, de trabalhadores, de idosos. De jovens que sonham com o futuro.

Estamos falando da vida. Nenhuma pessoa deveria perder a esperança porque mora longe de um centro urbano. Nenhuma família deveria enfrentar sozinha o sofrimento mental de um ente querido. Nenhum cidadão deveria esperar uma crise grave para finalmente conseguir atendimento.

Mato Grosso mostrou que é capaz de liderar o Brasil em crescimento econômico. Agora precisamos mostrar que também podemos liderar no cuidado com as pessoas.

O verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pelo tamanho da economia. Mede-se pela capacidade de proteger quem mais precisa.

Por isso, faço um apelo aos gestores públicos, aos prefeitos, ao Governo do Estado, e a esta Assembleia Legislativa.

Vamos transformar a expansão da Rede de Atenção Psicossocial em uma prioridade estadual. Vamos reduzir o vazio assistencial. Vamos aproximar os serviços das pessoas. Vamos garantir que cada mato-grossense tenha acesso ao cuidado em saúde mental no momento em que mais precisar.

Porque investir em CAPS não é apenas ampliar uma política pública.

É salvar vidas. É proteger famílias. É devolver esperança.

Carlos Avallone é deputado estadual e preside a CST da Saúde Mental

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