Enfim, o exemplo arrasta

Algumas das maiores mudanças da nossa vida começam de maneira tão simples que, naquele momento, nem percebemos que estamos diante de um divisor de águas.
Era 2020. Um sábado de sol em Cuiabá, daqueles em que o calor parece fazer parte da personalidade da cidade.
Na noite anterior, eu havia decidido colocar em prática tudo aquilo que vinha aprendendo nos cursos de Pit Smoker. A missão era simples: assar um leitão inteiro, testar algumas técnicas, aproveitar o dia e, naturalmente, acompanhar tudo com uma cerveja bem gelada.
O fogo estava no ponto.
O leitão assando lentamente.
A cerveja trincando.
Tudo caminhava perfeitamente.
Até que meu celular tocou.
Era o Piveta.
Naquele momento, ele ainda era apenas um conhecido com quem eu tinha contato, mas que estava prestes a ocupar um espaço muito diferente na minha vida.
— Me manda sua localização.
Achei estranho.
Nós não havíamos combinado absolutamente nada.
Pouco depois descobri que ele estava de bicicleta e já havia pedalado mais de 40 quilômetros apenas para chegar até ali.
Passei a localização.
Quando chegou, explicou que queria conhecer minha criação de American Bully Micro, cães pelos quais sempre fui apaixonado e que considero entre os melhores e mais amáveis companheiros que existem.
Entrou, conheceu os cachorros e, naturalmente, foi conferir o leitão na Pit Smoker.
Ele também gostava de carne, especialmente de cortes suínos.
Mas naquele dia estava no horário do exercício.
Pediu apenas um copo de água gelada.
Olhou os cachorros.
Conferiu o leitão.
Conversou comigo.
E não comeu absolutamente nada.
Naquele momento, aquilo parecia apenas uma curiosidade.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquela cena representava muito mais.
Eu ainda não sabia, mas estava diante de alguém que me ensinaria uma das lições mais importantes da minha vida sem precisar fazer um único discurso.
Com o passar do tempo, nossa convivência aumentou.
Vieram as conversas, os encontros e as histórias sobre sua chegada a Mato Grosso, o desbravamento, as dificuldades enfrentadas e tudo aquilo que precisou superar para construir sua trajetória.
Mas o que realmente começou a me transformar não foram apenas as histórias.
Foi observar como ele vivia.
Eu comecei a prestar atenção nos detalhes.
Na disciplina.
Na alimentação.
Nos horários.
No exercício.
Na maneira como ele tratava o próprio corpo.
Na capacidade de manter uma decisão mesmo quando ninguém estava olhando.
E, pouco a pouco, aquilo começou a me incomodar — no melhor sentido possível.
Porque comecei a olhar para mim mesmo e perceber que eu também poderia fazer diferente.
Até então, eu não enxergava minha vida com a mesma perspectiva.
Eu precisava mudar.
E a mudança começou primeiro na cabeça.
Depois veio para os hábitos.
Passei a questionar aquilo que eu comia.
Passei a olhar diferente para o álcool.
Passei a valorizar meu sono.
Comecei a levar o treinamento a sério.
Passei a entender que saúde não era apenas não estar doente — era construir, todos os dias, uma versão melhor de mim mesmo.
E aquilo que inicialmente parecia apenas uma influência foi se transformando em uma verdadeira mudança de estilo de vida.
Abandonei definitivamente o álcool.
Passei a selecionar muito melhor minha alimentação.
Comecei a cuidar do meu sono, da minha recuperação e da minha rotina.
Passei a treinar praticamente todos os dias — academia, parques, bicicleta, musculação.
O exercício deixou de ser uma obrigação e passou a fazer parte da minha identidade.
Eu já não treinava porque precisava.
Eu treinava porque havia me tornado alguém que treinava.
Essa talvez tenha sido a maior transformação.
Não foi simplesmente perder peso.
Não foi apenas mudar o corpo.
Não foi simplesmente entrar no fisiculturismo.
Foi mudar a maneira como eu me enxergava.
Em aproximadamente três anos, aquele homem que estava em casa tomando cerveja enquanto assava um leitão havia se tornado atleta de fisiculturismo.
E o mais interessante é que ninguém precisou me obrigar.
Ninguém estabeleceu uma meta para mim.
Ninguém colocou uma arma na minha cabeça.
Eu simplesmente comecei a conviver com alguém cujo comportamento me mostrou, na prática, que disciplina poderia ser uma escolha diária.
Foi aí que entendi que algumas pessoas não mudam nossa vida porque nos dizem o que fazer.
Elas mudam nossa vida porque nos mostram, através das próprias atitudes, quem nós também podemos nos tornar.
Hoje, quando penso naquele sábado de 2020, não lembro apenas do leitão, da cerveja, dos cachorros ou dos mais de 40 quilômetros pedalados.
Lembro do começo de uma transformação.
Porque, às vezes, Deus — ou a própria vida — coloca determinadas pessoas no nosso caminho sem fazer barulho.
Sem anúncio.
Sem aviso.
E só muito tempo depois percebemos que aquele encontro aparentemente casual era, na verdade, o começo de uma nova fase.
Por isso, hoje eu tenho uma certeza:
cerque-se de pessoas que desejam extrair o seu melhor.
Pessoas que fazem você querer evoluir.
Que despertam disciplina.
Que elevam sua energia.
Que fazem você cuidar mais da sua saúde, da sua mente e da sua vida.
E, principalmente, afaste-se de quem constantemente tenta puxá-lo para baixo, para os velhos hábitos, para a acomodação e para tudo aquilo que diminui o seu potencial.
Porque convivência influencia.
Ambiente influencia.
Exemplo influencia.
E, muitas vezes, a pessoa que muda nossa vida nem sequer percebe o tamanho da influência que exerceu sobre nós.
Hoje eu posso dizer que minha vida mudou.
Minha alimentação mudou.
Meu corpo mudou.
Minha rotina mudou.
Minha relação com o álcool mudou.
Minha disciplina mudou.
Minha maneira de pensar mudou.
Eu mudei.
E tudo começou com um sujeito chegando de bicicleta, depois de pedalar mais de 40 quilômetros, pedindo apenas um copo de água gelada — enquanto uma leitoa inteira assava na minha frente.
Naquele sábado, eu achava que estava recebendo um amigo para conhecer meus cachorros.
Na verdade, eu estava recebendo um exemplo.
E foi assim que aprendi uma das maiores lições da minha vida:
PALAVRAS PODEM ATÉ CONVENCER NO INÍCIO.
MAS É O EXEMPLO QUE ARRASTA.
Max Magno de Campos é servidor público estadual


