sucessão presidencial

Lula e Flávio vão disputar 2º turno para presidente da República

O senador Flávio Bolsonaro (PL), 45, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80, disputarão o segundo turno da eleição presidencial de 2026, marcado para o dia 25 de outubro

Por Valdemar Félix 04/10/2026 às 20:19 12 min de leitura

O próximo presidente da República ainda não foi definido. Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vão para o segundo turno das eleições gerais, marcado para o próximo dia 25. A disputa segue acirrada em uma corrida eleitoral marcada por oscilações nas pesquisas de intenção de voto, pelo impacto político das investigações envolvendo o Banco Master, pelo escândalo do INSS e, na reta final, por uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF).

Também disputaram as eleições Augusto Cury (Avante), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB) Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP), Veterinário Wilson Grassi (Democrata) e Zema (Novo).

Duas trajetórias até o segundo turno

Lula já foi presidente da República três vezes. Uma das suas promessas de campanha na eleição passada, em 2022, foi de que não tentaria a reeleição, mas, sem ter preparado um sucessor na esquerda com força política o suficiente para substituí-lo em um novo pleito, é candidato novamente neste ano na busca pelo “tetra”.

Agora, se eleito para mais quatro anos, Lula estará diante da reta final de sua carreira política como presidente. Isso porque, querendo ou não, não poderá concorrer novamente nas eleições de 2030, visto que a Constituição Federal permite apenas uma reeleição subsequente. Se quiser tentar novamente, apenas em 2034, ano em que completará 84 anos.

A trajetória de Flávio até o segundo turno foi diferente. A candidatura começou a ser desenhada ainda no fim de 2025, quando Jair Bolsonaro (PL) indicou o filho mais velho como seu sucessor político. A escolha enfrentou resistências entre setores da direita que defendiam outros nomes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

No início de 2026, ainda havia dúvidas sobre o desempenho de Flávio, mas o senador passou a aparecer entre os principais nomes da disputa e conseguiu consolidar o seu nome como sucessor do pai diante de um eleitorado polarizado, que não se sentiu atraído pela terceira via.

Conflitos dentro da família Bolsonaro
A definição do candidato que enfrentaria Lula nesta eleição também abriu uma disputa interna no próprio grupo político de Jair Bolsonaro. Um dos principais episódios ocorreu entre Flávio e Michelle Bolsonaro, que se desentenderam publicamente após a ex-primeira-dama criticar a aliança do PL no Ceará com Ciro Gomes (PSDB). Michelle afirmou ter sido desrespeitada pelo enteado, enquanto Flávio negou a intenção de ofendê-la e pediu desculpas.

Em julho, Jair Bolsonaro tentou encerrar a disputa interna ao declarar Flávio como seu candidato e “porta-voz”. O senador leu a mensagem em uma transmissão nas redes sociais e disse que a decisão do pai, que cumpre pena em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, ajudaria a evitar “falas conflituosas ou direções diferentes” dentro da direita.

A oficialização da candidatura ocorreu em 25 de julho, durante a convenção nacional do PL, em São Paulo. É a primeira vez que Flávio disputa o Palácio do Planalto. No evento, o senador se apresentou como responsável pela continuidade do legado do pai.

A formação da chapa, porém, só foi definida posteriormente. Flávio passou semanas tentando escolher uma mulher para a vice-presidência e também buscou atrair partidos do Centrão, mas PP, União Brasil e Republicanos decidiram manter neutralidade na disputa presidencial. Sem conseguir ampliar a aliança, o PL optou por uma chapa própria e escolheu o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice.

Tarifaço coloca soberania no centro da campanha
Enquanto Flávio buscava consolidar sua candidatura, a política externa dos Estados Unidos também passou a interferir diretamente no debate eleitoral. A crise envolvendo as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump ao Brasil ganhou dimensão política depois que Flávio se reuniu com o presidente americano na Casa Branca, em 26 de maio.

Segundo o senador, os dois conversaram sobre tarifas, comércio, minerais críticos e segurança. Dias depois, Flávio afirmou ter pedido “expressamente” a Trump que não aplicasse uma tarifa sobre produtos brasileiros.

Após o anúncio das novas tarifas, adversários passaram a acusar Flávio de ter contribuído para a decisão do governo americano. O senador negou a interpretação e argumentou que uma nova sobretaxa acabaria fortalecendo a campanha de Lula. O episódio chegou a render ao candidato o apelido de “Tariflávio” entre adversários.

A questão também entrou no discurso de Lula. O presidente passou a associar as tarifas à defesa da soberania nacional e repetiu, ao longo dos meses, que o Brasil não é uma colônia, que defender a soberania é defender a democracia e que ninguém afastaria o País de sua soberania.

INSS, Master e a crise no STF
Escândalos em torno do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do Banco Master, de Daniel Vorcaro, refletiram diretamente na corrida eleitoral deste ano. As revelações e investigações também colocaram o Supremo Tribunal Federal em foco, fazendo a Corte atravessar uma crise sem precedentes. E isso, em consequência, também gerou impactos nas eleições.

Por mais que essas questões tenham respingado em Lula, o petista não foi diretamente envolvido. Diferente de Flávio Bolsonaro, que se viu no olho do furacão –como com as revelações de conversas do senador com Vorcaro e questões envolvendo investimentos para o filme Dark Horse, que conta a história de Jair Bolsonaro, entre outros episódios.

No caso de Lula, em junho, Jaques Wagner, senador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) na Bahia, líder do governo no Senado e aliado histórico do presidente, foi alvo da Polícia Federal em nova fase da Compliance Zero, operação que investiga supostos envolvimentos em crimes relacionados ao caso Master. Após isso, Wagner deixou o posto de liderança em comum acordo com Lula.

Sobre a questão, Lula manteve o discurso de que as pessoas são inocentes até que se prove o contrário e que, se algum desvio foi cometido, é necessário pagar pelo erro. “Eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo por conta de uma ilação, não posso. Eu tenho consciência que ele é honesto”, comentou Lula em sabatina na Globo.

Em paralelo, o próprio filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, é investigado em três inquéritos pela Polícia Federal, sob suspeita de corrupção e tráfico de influência em órgãos federais no caso do INSS. Lula foi questionado sobre o assunto ao longo da corrida eleitoral e repetiu que, caso tenha ocorrido alguma irregularidade, os responsáveis deverão responder por isso.

A relação de Flávio com o Banco Master, por sua vez, tornou-se um dos principais episódios da campanha. Em maio, vieram a público mensagens e áudios nos quais o senador aparece pedindo recursos a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”. Após negar inicialmente, quando as provas vieram à tona, Flávio confirmou que procurou o banqueiro e justificou que se tratava de uma tentativa de “obter patrocínio privado para a produção”.

Em julho, Flávio foi incluído na investigação que apura o repasse de R$ 61 milhões de Vorcaro para o financiamento do filme. Em setembro, o ministro André Mendonça determinou a abertura de um inquérito para investigar a participação do senador em possíveis crimes relacionados ao financiamento da produção, incluindo suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. A investigação está em sigilo, e Flávio nega irregularidades.

A relação entre o senador e Vorcaro voltou ao centro da campanha em setembro, após a divulgação de que Flávio havia tentado falar por telefone com o então dono do Banco Master nos dias que antecederam a primeira prisão do ex-banqueiro, em 17 de novembro de 2025. Os registros de contato foram identificados pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, apreendido na ocasião.

A crise no STF também entrou no discurso eleitoral de Flávio. A candidatura passou a explorar os conflitos entre o Executivo e a Corte e a associar Lula ao Supremo. Em setembro, diante da crise envolvendo o STF e o Banco Master, Flávio levou ao horário eleitoral um pronunciamento no qual afirmou que o governo Lula havia criado um “desequilíbrio institucional”.

O petista, por outro lado, defendeu uma reforma no Judiciário e a investigação de todos os envolvidos, sem blindagem. “A democracia precisa de instituições fortes e respeitadas. Fica claro que nossos sistemas político e judiciário precisam de reformas profundas. É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer”, afirmou ao se pronunciar sobre o caso no início de setembro

Bets, Nossa Senhora Aparecida e debate cancelado
Os últimos dias antes do primeiro turno das eleições foram intensos e reforçaram o ineditismo desse pleito –indo de proibição de bets à debate cancelado.

No último dia 25, o governo do presidente Lula anunciou a proibição geral da oferta de serviços e de publicidade das bets no Brasil, com projeto de lei em regime de urgência para “reforçar a repressão ao jogo no País”. Desde o dia, não é mais permitido fazer novos aportes e amanhã, no dia 6 de outubro, os sites e aplicativos de bets serão bloqueados.

Isso ocorreu dias após Lula, estando em cenário desfavorável nas pesquisas eleitorais, Lula promulgou o reajuste de cerca de 15% nos benefícios pagos pelo Bolsa Família. Com o aumento, o piso do ‌programa sai de R$ 600 para R$ 691.

Ao Terra, especialistas avaliaram se tratar de uma medida pensando na campanha para tentar aumentar a vantagem de Lula frente a Flávio, diminuir sua rejeição e manter o eleitorado cativo.

Em paralelo, uma polêmica marcou as eleições envolvendo Nossa Senhora Aparecida e seu título de Padroeira do Brasil. André Mendonça, ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou uma série de conteúdos, a pedido da equipe de Flávio Bolsonaro, que indicariam que o candidato queria retirar o título da Nossa Senhora. O candidato nega ter apresentado ou apoiado uma proposta com esse objetivo.

Na publicação que deu origem ao processo, ator e humorista Antonio Tabet havia escrito: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”. O texto era acompanhado por uma imagem da santa e não citava nominalmente Flávio Bolsonaro. Com a situação, com os eleitores católicos e evangélicos em disputa, as campanhas de Lula e de Flávio passaram a voltar seus discursos à questão da representação religiosa.

A última grande movimentação se deu na quinta-feira, dia 1ª, quando a Globo cancelou o debate com candidatos à Presidência da República faltando menos de uma hora para o início da transmissão por “interferência indevida na liberdade” pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse seria o último debate realizado com os presidenciáveis.

O motivo foram duas intimações judiciais relacionadas à realização do evento: uma do TSE que proibia que a emissora mostrasse o púlpito vazio de Lula, e outra do STF que assegurou a participação de Renan Santos (Missão) no debate – mesmo com ele não sendo obrigado a ser convidado pelas regras da justiça eleitoral.

No debate, participariam Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e, considerando a decisão do STF, Renan Santos (Missão). Lula, que já tinha informado que não iria, foi entrevistado no Flow, no YouTube. Já Flávio Bolsonaro (PL) desistiu de ir à Globo de última hora, alegando “censura imposta ao evento”.

Dois discursos para o segundo turno
A chegada de Lula e Flávio ao segundo turno consolida uma disputa em que os dois candidatos passaram a explorar temas semelhantes a partir de posições diferentes. De um lado, Lula concentrou parte de seu discurso na defesa da soberania nacional, na necessidade de fortalecer as instituições e na investigação de eventuais irregularidades. Do outro, Flávio passou a associar o governo petista ao STF e a explorar a crise institucional em sua campanha.

A campanha de Flávio também foi marcada pela associação direta ao legado de Jair Bolsonaro. O início oficial nas ruas ocorreu em 16 de agosto, em Copacabana, no Rio de Janeiro, local escolhido por ter sido palco de manifestações bolsonaristas nos últimos anos. Flávio utilizou áudios do pai, defendeu seu legado e apresentou propostas principalmente nas áreas de segurança pública e economia.

No segundo turno, a disputa entre Lula e Flávio deve ser ainda mais acirrada, segundo apontam as pesquisas eleitorais. Na véspera do 2º turno, cada levantamento trouxe um deles em vantagem.

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