Opinião

Endividamento empresarial

Por Valdemar Félix 25/08/2026 às 08:04 4 min de leitura

Se o orçamento da sua empresa virou uma corrida para pagar juros e bancar parcelas de renegociação, saiba que você não está sozinho, e a culpa pode não ser da sua gestão financeira.

A Serasa Experian divulgou no dia 18/06/2026 os dados de endividamento das empresas no Brasil, e o resultado pode ter a ver mais com a administração das dívidas do que com a dificuldade de pagamento propriamente dita.

Esse cenário de endividamento não é novidade, principalmente para quem trabalha com administração de passivo bancário. Isso porque a maior dificuldade do micro e pequeno empreendedor é negociar as dívidas com as instituições financeiras. A balança é injusta e a Justiça que, em tese, serviria para equilibrar essa balança, sempre tende para o lado dos bancos.

Invariavelmente, uma empresa tem muito menos poder de negociação perante uma instituição financeira do que uma multinacional e isso, no final do dia, pesa no bolso dos pequenos.

É claro que esse não é o único fator que explica o endividamento empresarial, mas o micro e o pequeno empreendedor sabem muito bem como é “negociar” uma dívida ou um reparcelamento com o banco, pois, na verdade, não há negociação, e sim imposição das condições que a instituição financeira deseja.

Por isso, já passou da hora de o Brasil ter uma regulamentação bancária mais equilibrada, com mais equidade, pois quem já precisou negociar dívidas bancárias com as instituições sabe bem como é. Não há opções de juros, não existe maneira de amenizar a dívida, pois, em qualquer negociação, quem sairá ganhando mais e mais é o banco.

Não estou defendendo que a instituição financeira não tenha lucro, mas, quando você analisa as informações, as pessoas e as empresas estão cada vez mais endividadas, e os bancos batem recordes de lucros ano a ano. Essa balança precisa estar mais equilibrada.

Não é à toa que grandes empresas que estão entrando em recuperação judicial concentram seus credores nas instituições financeiras, como é o caso da Casas Bahia e do Grupo Marabraz. Quando analisamos os dados dos credores dessas empresas, constatamos o óbvio: instituições financeiras concentrando a maior parte das dívidas das empresas.

E com o micro e o pequeno empreendedor, que são os que estão mais endividados, segundo o levantamento da Serasa, não é diferente. A maior parte da dívida deles está concentrada nos bancos.

O ciclo é sempre o mesmo: o caixa aperta, o empresário pega um empréstimo no banco e alivia a empresa por alguns meses; depois, a parcela começa a pesar no orçamento da empresa e ele precisa de outro empréstimo para honrar aquele primeiro. Depois disso, vira uma bola de neve. Empréstimo atrás de empréstimo até ele não conseguir mais pagar.

Segundo o levantamento da Serasa, em média, cada empresa endividada acumula mais de 7 dívidas em atraso, o que confirma esse ciclo vicioso de empréstimos sucessivos. No escritório, atendemos com frequência empresários que já perderam a noção do valor original da dívida, pois a sequência de renegociações impostas pelo banco soterrou o contrato inicial.

Isso demonstra como a falta de estratégia e o desespero para manter as contas em dia sufocam o fluxo de caixa. Pressionado, o empreendedor costuma focar apenas no valor da parcela que parece caber no orçamento imediato para ‘limpar o nome’, sem perceber que essa renegociação mal estruturada está drenando todo o lucro e o faturamento da empresa.

Por isso, negociar com bancos exige estratégia, paciência e, principalmente, profissionalismo, pois o que está em jogo é o futuro da sua empresa e de seus colaboradores. Afinal, uma empresa que fecha as portas por causa de dívidas bancárias deixa de gerar empregos e coloca famílias em situação de vulnerabilidade.

O mercado bancário é impiedoso com quem tenta resolver problemas complexos na base do desespero. Quando uma empresa fecha as portas por sufocamento financeiro, perde o empresário, perdem os colaboradores e perde toda a sociedade. Proteger o fluxo de caixa contra abusos e impor limites razoáveis às instituições financeiras não é apenas uma decisão de gestão; é um ato de responsabilidade com o futuro do seu negócio.

Carlos Henrique Ghiorzi é advogado, especialista em dívidas bancárias, direito tributário e empresarial.

Leia Também

Deixe seu comentário