Opinião

“Sensação” de preços altos ou realidade no bolso?

Por Valdemar Félix 25/08/2026 às 08:09 4 min de leitura

O Brasil vive, hoje, uma polarização política exacerbada, que se manifesta em divisões ideológicas e afetivas profundas, afetando relações sociais, debates públicos e até temas culturais, como o futebol.

Como se não bastasse isso, infelizmente, deparamo-nos atualmente com uma situação anômala e vexatória, para não dizer imoral, envolvendo alguns jornalistas e comentaristas econômicos.

Para maquiar e minimizar a realidade econômica de um país, que é norteada por diversos fatores, incluindo produção, distribuição e consumo de bens e serviços, alguns utilizam terminologias esdrúxulas, que acabam, na minha visão, confundindo o cidadão brasileiro.

Não sou economista. Porém, tenho um mínimo de percepção e, através dos meus neurônios, procuro compreender aquilo que vejo e ouço. Por isso, quando pessoas que desempenham papel fundamental na comunicação em nosso país fazem determinados comentários, algumas afirmações acabam chamando a atenção.

Algumas dessas pessoas, conhecidas como âncoras e comentaristas da televisão brasileira, por meio de seus comentários e análises, acabam, de certa forma, influenciando a percepção e o entendimento do povo brasileiro, principalmente daqueles que possuem menos conhecimento acerca da economia nacional.

Como exemplo, cito a comentarista de economia Miriam Leitão, de uma renomada empresa de comunicação do nosso país, ao utilizar a expressão “sensação de preços altos” no mercado.

A referida comentarista abordou uma contradição percebida por muitos consumidores: embora os índices mostrem uma desaceleração da inflação, permanece no dia a dia a “sensação” de que os produtos continuam caros.

Até aí, tudo bem. O problema, no meu entendimento, está justamente na utilização da palavra “sensação” para definir aquilo que o consumidor efetivamente encontra quando vai às compras.

Na sequência, a comentarista diferenciou o comportamento da inflação do nível efetivo dos preços.

De acordo com essa análise, uma taxa de inflação mais baixa indica apenas que os preços estão aumentando em um ritmo menor. Isso não significa, necessariamente, que tenham retornado aos níveis registrados antes das altas acumuladas.

Em outras palavras, o fato de a inflação desacelerar não significa que o preço dos produtos tenha diminuído.

E a própria fala atribuída à comentarista reconhece essa percepção popular: “A sensação que as pessoas têm conversando com as pessoas na rua é que, poxa, que notícia é essa? Que a inflação desacelera, mas eu vou com R$ 100 ao supermercado, não consigo comprar quase nada, os preços estão super altos. ”

Então, utilizando meu pequeno conhecimento de “economês”, chego a uma conclusão bastante simples: não é sensação; é realidade.

Se o consumidor chega ao supermercado com R$ 100 e percebe que consegue comprar cada vez menos produtos, não estamos falando apenas de uma percepção subjetiva. Estamos falando do poder de compra do cidadão.

Pelo que entendi, então, através dessa belíssima explicação, os milhões de brasileiros que enfrentam a insegurança alimentar no país não estariam propriamente passando fome; estariam apenas tendo uma “sensação de fome”.

É justamente nesse ponto que a ironia se transforma em indignação.

A linguagem pode até tentar suavizar uma realidade econômica, mas o carrinho de supermercado não mente. O caixa não trabalha com “sensações”. O consumidor paga pelo preço efetivamente cobrado.

A inflação pode desacelerar, mas, se os preços acumulados continuam elevados, a população continuará sentindo no bolso o peso das altas anteriores.

E, convenhamos, não existe “sensação” quando falta dinheiro para colocar comida na mesa.

Essa fala me fez lembrar uma pessoa famosa na política brasileira e determinadas declarações que, ao longo da história, também ficaram marcadas pela tentativa de transformar uma realidade dura em algo aparentemente diferente.

No fim das contas, talvez seja melhor voltar ao velho princípio: menos “economês” e mais realidade.

Porque, quando R$ 100 já não conseguem fazer aquilo que faziam antes no supermercado, o brasileiro não precisa de explicações sofisticadas para saber o que está acontecendo.

Ele simplesmente olha para o carrinho.

E para a conta.

Pare o mundo, quero descer.

Professor Licio Antonio Malheiros Jornalista, articulista e geógrafo

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