lesão no nervo óptico

Canetas e perda de visão: o que se sabe sobre os 13 casos suspeitos de Noia investigados no Brasil

Anvisa apura 13 notificações da lesão no nervo óptico entre pacientes que usavam canetas. Especialistas dizem que tratamento com indicação médica segue seguro

Por Valdemar Félix 28/09/2026 às 16:00 7 min de leitura

A Anvisa investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia) em pacientes que usavam canetas da classe dos agonistas de GLP-1, indicadas para diabetes e obesidade, como revelou o g1.

De acordo com um levantamento feito a pedido do g1, as notificações envolvem pacientes que usavam Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro. (Veja abaixo o que dizem as empresas)

Os casos ainda são tratados como suspeitos e estão sendo acompanhados pela Anvisa. De acordo com a agência, a presença do remédio e da doença na mesma notificação não comprova que um tenha causado o outro.

O que é a Noia?
A Noia é uma lesão no nervo óptico, a estrutura que leva as imagens do olho até o cérebro.

Ela ocorre quando os pequenos vasos que irrigam a parte da frente desse nervo entopem, num processo semelhante ao de um infarto.

Sem oxigênio e nutrientes, parte das células nervosas morre, e a visão de um dos olhos piora de repente, em geral sem dor. Na maioria dos casos, a perda é definitiva.

A doença é rara e aparece com mais frequência em pessoas que já têm os vasos comprometidos.

É o caso de quem tem diabetes, condição que danifica o endotélio, camada de células que reveste os vasos por dentro, e deixa o nervo mais vulnerável à falta de sangue.

“A diabetes danifica o endotélio, que é a camada que reveste os vasos, e deixa o nervo mais vulnerável à falta de sangue. É um quadro raro, mas que a gente pode ver em pacientes com esse quadro”, explica o oftalmologista Rubens Belfort Neto, doutor e pós-doutor pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O que se sabe sobre a relação entre a Noia e as canetas?

As notificações estão no painel de farmacovigilância da Anvisa, que recebe relatos de pacientes, médicos e das próprias farmacêuticas.

Todos os casos são tidos ainda como suspeitos e são investigados.

Desde 2018, o sistema reúne 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica, desses 12 são relacionadas às canetas.

As que não envolvem as canetas citam imunomoduladores, remédios contra o câncer, outros antidiabéticos e medicamentos de uso oftalmológico.

Entre os agonistas de GLP-1, as notificações se distribuem entre:

Ozempic: 5 notificações
Wegovy: 3 notificações
Wegovy FlexTouch: 2 notificações
Rybelsus: 2 notificações
Mounjaro: 1 notificação

No sistema, 12 registros citam a semaglutida, princípio ativo de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, e um cita a tirzepatida, do Mounjaro. Segundo a Anvisa, os casos podem se somar entre os medicamentos.

Em nota ao g1, a agência ressaltou que a presença do remédio e da doença na mesma notificação não comprova que um tenha causado o outro.

Na última semana, pacientes nos Estados Unidos processaram a Novo Nordisk por casos de Noia após o uso de semaglutida. Eles argumentam que o medicamento causou a perda de visão — a empresa nega.

Até agora, nenhum estudo provou essa relação. O mais citado, publicado na revista científica JAMA Ophthalmology, analisou mais de 1,6 mil prontuários e observou risco de quatro a sete vezes maior de Noia entre quem recebeu semaglutida, em comparação com usuários de outras medicações.

Os próprios autores, porém, consideraram a observação limitada para estabelecer causa e efeito, porque parte dos pacientes tinha diabetes, que por si só pode levar à doença.

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o estudo e as análises que se existem até agora mostram um aumento do risco. O que não é o bastante para suspender a medicação, por exemplo.

Com o número de casos, a Anvisa determinou em junho de 2025 que a Noia passasse a constar na bula dos medicamentos com semaglutida como reação adversa muito rara.

Para especialistas, o número de notificações não configura um sinal de alarme. Milhões de pessoas usam esses medicamentos, dentro e fora do país, enquanto isso o volume de relatos é pequeno diante desse universo de pacientes.

Quem faz o tratamento está seguro?
Para os especialistas ouvidos pelo g1, sim. Quem usa as canetas para tratar obesidade, diabetes ou hipertensão segue tendo mais a ganhar do que a perder.

Segundo Belfort Neto, o aumento de risco sugerido pelos estudos é pequeno, enquanto essas doenças são ameaças comprovadas à saúde.

O próprio monitoramento existe para proteger o paciente. Relatos de efeitos adversos são registrados e investigados, e os casos só deixam de ser suspeitos quando há evidência de relação com o remédio, algo que as pesquisas feitas até aqui não estabeleceram.

A inclusão na bula tem uma função preventiva: quem já teve Noia não deve usar o medicamento. As sociedades médicas também recomendam a suspensão para quem apresenta perda súbita ou recente da visão.

Pacientes com diabetes em tratamento devem fazer exames de retina periódicos, já que a doença aumenta a predisposição a lesões nos vasos do olho.

O cuidado maior, segundo os especialistas, vale para o uso sem indicação médica, cada vez mais comum desde que as canetas ganharam apelo estético.

“Todo remédio tem pequenos riscos e o benefício tem que ser maior do que o risco. Então, se alguém vai tomar esse remédio sem necessidade, só por vaidade, talvez não deva tomar”, afirma Belfort Neto.

O que dizem as empresas
O que diz a Novo Nordisk
A semaglutida foi estudada em múltiplos programas de desenvolvimento clínico robustos, com uma exposição total proveniente do uso pós-comercialização de mais de 49 milhões de pacientes/ano.

Em uma análise agrupada, publicada de ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo da Novo Nordisk, com liraglutida e semaglutida (com mais de 83.000 pacientes-ano de observação no braço da semaglutida), identificou um número muito baixo de casos de NAION (Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Não-Arterítica) confirmados por oftalmologistas, e não demonstrou um aumento na incidência de NAION em participantes que receberam semaglutida. As análises estatísticas sugeriram que a ocorrência de casos de NAION foi independente do fato de os pacientes terem recebido semaglutida ou placebo.

A semaglutida comprovou uma ampla gama de benefícios além do controle glicêmico e da perda de peso para pessoas com doenças cardiometabólicas. Considerando a totalidade das evidências de ensaios clínicos, relatos pós-comercialização e estudos observacionais, juntamente com a taxa de incidência geralmente baixa de NAION, a Novo Nordisk entende que o perfil de benefício-risco da semaglutida permanece favorável.

A segurança do paciente é uma prioridade máxima para a Novo Nordisk, e consideramos todos os relatos de eventos adversos associados aos nossos medicamentos, colaborando estreitamente com autoridades de saúde e órgãos reguladores em todo o mundo.

O que diz a Eli Lilly
A segurança dos pacientes é a principal prioridade da Lilly. Monitoramos, avaliamos e reportamos ativamente às autoridades regulatórias as informações de segurança relacionadas a todos os nossos medicamentos. Como parte do nosso processo rotineiro de revisão de segurança, mantemos discussões contínuas com as autoridades regulatórias sobre possíveis temas de segurança e continuaremos avaliando os dados, incluindo quaisquer informações relacionadas a questões oftalmológicas. Se alguém apresentar efeitos colaterais ao utilizar um medicamento da Lilly, deve conversar com seu médico ou outro profissional de saúde.

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