Violência sexual online atinge 19% dos adolescentes e Defensoria alerta famílias
Relatório internacional estima que cerca de 3 milhões de brasileiros de 12 a 17 anos sofreram exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia em um ano

Um em cada cinco adolescentes de 12 a 17 anos que usam a internet no Brasil (19%) foi vítima de exploração ou abuso sexual facilitado por meio do uso de tecnologia no período de um ano, segundo relatório que reúne dados sobre violência sexual no ambiente digital em 25 países. O percentual representa cerca de 3 milhões de meninas e meninos brasileiros e diante do problema, neste 24 de agosto, Dia da Infância, a Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT) alerta para os riscos no ambiente virtual e reforça que diálogo, acompanhamento, atenção aos sinais de violência são essenciais para prevenir e interromper abusos e proteger as vítimas.
Os dados integram o relatório “Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia”, lançado em março de 2026 pelo UNICEF Innocenti, em parceria com a organização internacional especializada no enfrentamento à exploração sexual de crianças ECPAT International e a Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol), com financiamento da Safe Online. O estudo ouviu adolescentes de 12 a 17 anos e pais ou responsáveis em diferentes regiões do país.
Ao comentar os dados do relatório, o defensor público que atua na comarca de Porto Alegre do Norte, 1.020 km de Cuiabá, Geraldo Vendramini, afirma que a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital depende tanto da prevenção dentro de casa quanto do acesso à rede de proteção e à assistência jurídica.
“O Dia da Infância convida a sociedade a refletir sobre os novos contornos da proteção integral garantida à crianças e adolescentes pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Na contemporaneidade, essa salvaguarda ultrapassa os limites do espaço físico e exige atenção redobrada ao ambiente virtual. Os dados divulgados no relatório da UNICEF revelam um cenário alarmante de adolescentes vítimas de alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela uso de tecnologia no Brasil. E indica que o Instagram (59%) e o WhatsApp (51%) são as plataformas mais usadas pelos criminosos”, avalia o defensor.
A pesquisa identificou diferentes formas de violência sexual em ambientes digitais. O percentual de 14% dos entrevistados relataram ter recebido imagens de conteúdo sexual sem querer, 9% receberam pedidos para enviar imagens ou vídeos íntimos e 5% receberam oferta de dinheiro ou presentes em troca desse tipo de conteúdo. Também foram registrados casos de ameaças de divulgação de imagens íntimas, compartilhamento de conteúdo sem consentimento, propostas de encontros presenciais com finalidade sexual e uso de inteligência artificial para produzir imagens ou vídeos sexuais falsos.
O relatório registra que as situações ocorreram em redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online e outras plataformas digitais. A tecnologia pode ser utilizada para aproximar o agressor da vítima, estabelecer relações de confiança, coagir, extorquir, produzir ou compartilhar conteúdos de natureza sexual.
“A dinâmica do abuso digital costuma iniciar-se de maneira sutil, por meio de um processo gradual de aliciamento (grooming). O agressor conquista a confiança da criança ou adolescente, oferece validação emocional e constrói uma relação de sigilo. A partir desse vínculo, surgem os pedidos de imagens ou vídeos íntimos que, uma vez compartilhados, tornam-se instrumento de chantagem e extorsão (sextorsão), aprisionando a vítima no medo da exposição pública. É fundamental combater o mito de que as violências praticadas ‘apenas pela internet’ seriam menos lesivas do que as presenciais. A violação à dignidade e à intimidade no ambiente digital gera impactos profundos e continuados. A velocidade e o alcance da rede amplificam a sensação de vulnerabilidade, resultando em quadros severos de isolamento, ansiedade, depressão e sofrimento psíquico. A agressão mediada por telas é concreta, atinge o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes e produz efeitos devastadores”, avalia o defensor.
O defensor público que atua na Defesa da Infância e Adolescência, em Cuiabá, Alysson Ourives, avalia que a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital passa também pela construção de uma relação de confiança dentro de casa, que permita reconhecer riscos e buscar ajuda diante de situações de violência.
“Os pais e responsáveis têm papel fundamental nesse processo. É importante estabelecer regras adequadas à idade, acompanhar o uso das plataformas, conversar abertamente com os filhos sobre os riscos existentes no ambiente virtual e, principalmente, criar um espaço de confiança para que o adolescente se sinta seguro para relatar qualquer situação que lhe cause medo, constrangimento ou insegurança. Uma abordagem exclusivamente punitiva pode dificultar a busca de ajuda diante de situações de violência ou exposição, segundo mostra o próprio relatório”, disse.
Atenção – Os dados reforçam que a proteção de crianças e adolescentes não se limita ao controle do tempo de tela. O acompanhamento da vida digital passa pelo conhecimento das redes sociais, aplicativos e jogos utilizados pelos filhos, pelas configurações de privacidade e segurança e, principalmente, pela manutenção de um ambiente de diálogo.
A abertura para que ocorram conversas francas entre pais e filhos é especialmente importante diante de outro dado do relatório: 34% das vítimas não contaram a ninguém o que havia acontecido. Entre as razões apontadas estão vergonha, dificuldade para saber a quem recorrer e receio de não serem acreditadas. Ainda segundo o Relatório, em quase metade dos casos (49%), a exploração e/ou o abuso foram cometidos por alguém conhecido da vítima.
O relatório retrata que a reação dos adultos também pode influenciar a decisão de pedir ajuda. O estudo indica que 27% dos pais e responsáveis afirmaram que restringiriam o acesso à internet caso o filho enfrentasse uma experiência online perturbadora e 9% disseram que aplicariam algum tipo de punição. E o estudo ainda indica que o medo de perder o acesso à internet pode contribuir para que crianças e adolescentes demorem mais a revelar situações de violência.
Nos casos de violação de direitos, a rede de proteção pode ser acionada para adoção das medidas necessárias. A Defensoria Pública presta assistência jurídica gratuita às famílias que necessitam de orientação e pode atuar para garantir direitos e medidas previstas na legislação.
“A Defensoria Pública desempenha papel basilar tanto na prevenção quanto no pós-fato. Na vertente preventiva, promove a educação em direitos e a conscientização comunitária. Quando a violação se consuma, a instituição atua de forma imediata para assegurar o acolhimento psicossocial da família, garantir que a escuta da criança e do adolescente respeite os parâmetros da Lei da Escuta Protegida (Lei 13.431/2017), evitando a revitimização. Orienta sobre a preservação de provas digitais e adota as medidas judiciais necessárias para a responsabilização dos envolvidos e da remoção dos conteúdos ilícitos. Proteger a infância e a juventude no ambiente digital é um dever compartilhado entre família, sociedade e Estado. Permanecemos à disposição da população para acolher, orientar e fazer valer os direitos fundamentais de cada criança e adolescente”, disse o defensor.
O diretor de Segurança e Prevenção de Riscos no Ambiente Digital da Secretaria Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Horta, afirma, na abertura do relatório, que o número de um em cada cinco adolescentes sujeitos a alguma forma de abuso ou exploração sexual é elevado e inaceitável. “Os dados apontam que crianças e adolescentes não são abusados apenas na ‘deep’ e ‘dark web’, mas também na superfície, em várias plataformas como aplicativos de redes sociais, de mensagem instantânea ou jogos eletrônicos que as famílias julgam ser seguros, permitindo, assim, seu uso”, afirma.
Ele lembra que a Internet é um ambiente que não foi originalmente projetado para ser seguro e garantir o bem-estar de crianças e adolescentes. “Redes sociais, não raro, têm um design que conduz ao uso excessivo ou que induz ao consumo, contendo conteúdos inadequados para crianças e adolescentes. Talvez a mensagem mais importante é: da forma como funciona hoje, a Internet não cumpre condições mínimas de segurança para esse público que representa 1/3 dos seus usuários. Hoje se tem clareza de que a participação e a livre expressão das crianças e adolescentes na esfera pública digital também exige medidas ativas de proteção desses sujeitos”.
Por isso, o defensor orienta para sinais de mudança de comportamento, medo ou ansiedade, isolamento, abandono repentino de redes sociais, após o uso do celular e para o receio de contato com determinada pessoa. Essas mudanças merecem atenção dos responsáveis, sem que a criança ou o adolescente seja responsabilizado pelo ocorrido. “Diante da suspeita ou confirmação de violência, conversas, mensagens, nomes de usuários, links e outros registros que possam contribuir para a apuração devem ser preservados. Imagens de conteúdo sexual envolvendo crianças ou adolescentes, entretanto, não devem ser encaminhadas ou compartilhadas como forma de comprovação, já que a circulação do material amplia a exposição da vítima”, orienta Vendramini.
A proteção também não deve significar o afastamento completo de crianças e adolescentes do ambiente digital. O próprio estudo destaca a necessidade de conciliar o acesso às oportunidades proporcionadas pela internet com medidas de segurança adequadas à idade e com a participação ativa dos responsáveis.
Estudo – O projeto internacional Disrupting Harm foi desenvolvido em 25 países de seis regiões do mundo. Na primeira fase da iniciativa, realizada em 13 países da África e do Sudeste Asiático, as estimativas nacionais de situações consideradas exploração e abuso sexual online variaram de 1% a 20% entre crianças e adolescentes. O Brasil foi pesquisado na segunda fase do projeto.


