Opinião

Devagar é resistência

Por Valdemar Félix 16/09/2026 às 07:51 4 min de leitura

Estive recentemente em São Paulo para o lançamento do meu livro na Bienal Internacional do Livro. Foram dias importantes, mas também leves. Aproveitei para passear com a família, visitar museus, conhecer alguns lugares e andar pela cidade sem transformar cada momento em uma obrigação.

Uma das lembranças mais simples foi uma caminhada pela Avenida Paulista debaixo de chuva. Para os adultos, poderia ser apenas um incômodo. Para as crianças, não. Elas se divertiram, riram, correram e fizeram da chuva parte do passeio. Não havia preocupação com horário, roupa molhada ou qualquer outra coisa. Elas estavam apenas vivendo aquele momento.

Também visitamos o Aquário de São Paulo. Ali, diante do mero, do peixe-boi, do bicho-preguiça e de tantos outros animais, fiquei pensando na maneira como cada espécie parece obedecer ao próprio tempo. Foi quando passamos pelo aquário dos tubarões e me deparei com uma placa informativa sobre o tubarão-da-Groenlândia.

Esse animal pode viver até 500 anos. Vive em águas geladas e profundas, possui metabolismo lento e nada devagar. Tudo nele parece acontecer sem pressa. Talvez seja justamente por isso que consiga atravessar tantos anos, sendo considerado o vertebrado mais longevo do planeta.

Enquanto um tubarão desses segue lentamente pelas águas frias, o mundo acima dele muda sem parar. Governos mudam, cidades crescem, impérios desaparecem, guerras acontecem, tecnologias aparecem, pandemias surgem e novas urgências se impõem. E ele continua no mesmo ritmo. Talvez seja impossível olhar para isso sem pensar na forma como nós vivemos.

Hoje, tudo exige velocidade. Precisamos produzir mais, responder mais rápido, alcançar resultados, cumprir metas e dar conta de tudo. Até o descanso, em muitos casos, virou uma espécie de intervalo entre uma tarefa e outra. Finais de semana e feriados são para poucos.

E existe uma ironia nisso. Corremos para ganhar tempo, mas frequentemente não sabemos o que fazer com o tempo que conseguimos economizar. A tecnologia acelerou processos, encurtou distâncias e facilitou tarefas. Ainda assim, muita gente sente que nunca teve tão pouco tempo. E eu ouço “aberrações” do tipo: “meu dia deveria ter mais de 24 horas”.

Eu também tenho meus objetivos. Trabalho, escrevo, estudo e gosto de realizar coisas. Não vejo problema nisso. O problema começa quando a busca pelo próximo resultado ocupa o espaço daquilo que já está acontecendo diante de nós. Isso não tem nada a ver com procrastinação. Talvez por isso aquela caminhada na Avenida Paulista tenha ficado na memória.

Não aconteceu nada extraordinário. Não houve planejamento especial. Foi apenas uma família caminhando debaixo de chuva, com crianças se divertindo. Mas há momentos assim que permanecem justamente porque não foram produzidos para gerar resultado algum. Nossa vida não precisa ser uma sequência de conquistas para ter valor.

Podemos crescer profissionalmente, melhorar de vida, alcançar reconhecimento e buscar novos objetivos. Tudo isso faz parte. Mas também precisamos perceber o que esse caminho está fazendo conosco por dentro.

O tubarão-da-Groenlândia vive séculos em seu próprio ritmo. Nós não temos esse tempo. Talvez por isso devêssemos cuidar melhor do pouco que temos.

No fim, a pergunta não é se devemos deixar de correr atrás dos nossos objetivos. A pergunta é outra. Vale a pena correr tanto, cobrar tanto de nós mesmos e transformar a vida inteira em busca de resultados apenas para satisfazer desejos que, depois de alcançados, serão substituídos por outros?

Talvez crescer também seja aprender a reconhecer quando vale a pena seguir em frente e quando basta caminhar devagar, mesmo debaixo de chuva.

Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis

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