Opinião

Banhos de chuvas nas ruas de Cuiabá

Por Valdemar Félix 30/07/2026 às 07:34 2 min de leitura

Na minha infância, a chuva não era motivo para recolhimento dentro de casa.

Era convite para a rua.

Bastava o céu escurecer e os primeiros pingos baterem no chão quente para que as crianças se agitassem.

O cheiro da terra molhada subia como um perfume forte, anunciando que a tarde seria diferente.

As ruas de Cuiabá ainda eram de terra batida.

Quando chovia, formavam-se pequenas poças que pareciam lagos para nossa imaginação.

Minha mãe reclamava.

Dizia que eu voltaria todo sujo.

Voltava mesmo.

Mas voltava feliz.

A chuva lavava o calor da cidade e também a pressa da infância.

Corríamos descalços pela rua.

Alguns improvisavam barquinhos de papel.

Outros apenas pisavam nas poças, espalhando água para todos os lados.

Ninguém pensava em gripe ou resfriado.

A preocupação das crianças era apenas aproveitar aquele momento raro em que o céu participava da brincadeira.

As casas tinham quintais grandes.

As mangueiras e goiabeiras recebiam a água da chuva como uma bênção.

A enxurrada corria pela sarjeta levando folhas, gravetos e pequenas aventuras.

A chuva terminava quase sempre do mesmo jeito.

O sol voltava de repente.

O chão começava a secar.

E as mães apareciam nos portões chamando os filhos.

Voltávamos para casa com a roupa molhada e os pés sujos de barro.

Mas com o coração leve.

Hoje as crianças quase não conhecem esse tipo de liberdade.

As ruas são asfaltadas.

Os carros passam depressa.

E a chuva virou apenas um transtorno para o trânsito.

Quando sinto o cheiro da terra molhada, ainda me lembro daquelas tardes.

E penso que algumas das melhores alegrias da vida vieram simplesmente de um banho de chuva.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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