Sua excelência, o eleitor

Mato Grosso se aproxima de mais uma eleição geral diante de uma realidade que merece ser observada para além das pesquisas, das alianças partidárias e das disputas pelos cargos majoritários.
Em 2026, 2.638.230 eleitores, distribuídos pelos 142 municípios do Estado, estarão diante da urna para escolher o futuro de Mato Grosso e também seus representantes no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa.
São milhões de decisões individuais que, somadas, determinarão quem terá o poder de legislar, fiscalizar e tomar decisões em nome da sociedade mato-grossense.
E talvez seja justamente aí que esteja o personagem mais importante — e muitas vezes menos lembrado — de uma eleição: Sua Excelência, o Eleitor. Um Estado, muitos territórios eleitorais.
Mato Grosso possui uma característica que não pode ser ignorada por quem pretende compreender o resultado das urnas: a enorme extensão territorial combinada com uma forte concentração do eleitorado em determinados municípios.
Os dados mostram que os 20 maiores colégios eleitorais concentram 1.639.026 eleitores, o equivalente a 62,13% de todo o eleitorado estadual — quase dois terços do eleitorado potencial do Estado reunidos em apenas 20 municípios.
Cuiabá, sozinha, possui 456.007 eleitores, seguida por Várzea Grande, com 194.778, e Rondonópolis, com 177.247.
Na sequência vêm Sinop, com 126.303; Sorriso, com 76.209; Tangará da Serra, com 70.287; Cáceres, com 62.365; Primavera do Leste, com 57.262; Lucas do Rio Verde, com 54.942; e Barra do Garças, com 47.306.
A lista dos maiores colégios eleitorais continua com importantes polos regionais como Alta Floresta, Campo Verde, Nova Mutum, Pontes e Lacerda, Juína, Colíder, Peixoto de Azevedo, Confresa, Poconé e Guarantã do Norte.
Esses municípios não são apenas números em uma tabela eleitoral. São alguns dos principais polos urbanos, econômicos e regionais de Mato Grosso e concentram parcela expressiva da população que decidirá a composição dos próximos parlamentos.
O mapa eleitoral, portanto, revela uma combinação interessante: concentração do eleitorado nos grandes centros e, ao mesmo tempo, uma extensa rede de municípios que representa a diversidade econômica, social e territorial do Estado.
É justamente essa característica que torna a eleição mato-grossense tão complexa.
O eleitor de Cuiabá não necessariamente possui as mesmas prioridades daquele de Confresa. As demandas de Rondonópolis podem ser diferentes das de Alta Floresta. Barra do Garças tem seus próprios desafios; o Araguaia, como um todo, possui uma realidade particular. O Norte tem sua dinâmica econômica; o Médio-Norte, outra realidade; o Oeste e o Sudoeste possuem características específicas; e o Sul, com seus grandes centros urbanos e sua força econômica, também possui uma agenda própria.
Compreender Mato Grosso eleitoralmente exige olhar para o mapa inteiro.
O quociente eleitoral e a matemática da representação
A disputa proporcional acrescenta outra dimensão importante.
Para deputado estadual e deputado federal, não basta simplesmente contar os candidatos mais votados. O sistema proporcional considera os votos válidos e o número de cadeiras em disputa, além das regras aplicáveis aos partidos e federações.
Na Assembleia Legislativa, são 24 cadeiras. Na Câmara dos Deputados, Mato Grosso elege 8 deputados federais.
Isso significa que o tamanho do eleitorado e a distribuição dos votos entre partidos e federações terão papel decisivo na composição das bancadas.
É possível trabalhar com uma estimativa do quociente eleitoral para 2026 a partir do comportamento do eleitorado, da participação esperada e dos resultados de eleições anteriores. Mas existe uma ressalva fundamental: o número oficial somente será conhecido depois da apuração dos votos válidos de 2026.
Por isso, mais importante do que cravar agora um valor definitivo é compreender a lógica.
O voto em determinado candidato também contribui para o desempenho de sua legenda ou federação.
A eleição proporcional não é apenas uma corrida individual.
É também uma disputa coletiva.
E isso torna ainda mais importante que o eleitor saiba não apenas quem está pedindo seu voto, mas qual projeto político e qual grupo partidário esse voto ajudará a colocar no Parlamento.
A identificação do eleitor também mudou
Há outra transformação silenciosa em curso.
Mato Grosso chegou às Eleições 2026 com 93,79% do eleitorado biometrizado, segundo dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso.
São 2.474.297 eleitores com biometria cadastrada, dentro de um universo de 2.638.230 pessoas aptas a votar.
O índice supera a média nacional e coloca Mato Grosso entre os estados brasileiros com maior cobertura biométrica.
O dado pode parecer meramente tecnológico, mas representa também um avanço institucional relevante.
A biometria reforça a identificação do eleitor e a segurança do processo de votação.
E há uma simbologia importante nesse avanço.
O esforço de cadastramento alcançou municípios de todos os tamanhos. Araguainha, um dos menores municípios de Mato Grosso, chegou a 100% de cobertura biométrica.
É uma demonstração de que a distância geográfica não precisa significar distância democrática.
Mas quem é esse eleitor?
Conhecer o tamanho do eleitorado não basta.
É preciso conhecer também o cidadão que está por trás desses números.
Dados divulgados pelo G1 mostram que pessoas pardas e pretas representam mais de 70% do eleitorado de Mato Grosso.
Esse dado precisa entrar na discussão sobre representação política.
A participação das mulheres merece a mesma atenção. Elas possuem papel decisivo no eleitorado brasileiro, mas sua presença nos espaços de representação ainda é uma questão que precisa ser encarada com seriedade.
A pergunta, portanto, não deve ser apenas quantas mulheres votarão.
É preciso perguntar:
quantas serão candidatas?
E, depois da eleição:
quantas estarão efetivamente ocupando cadeiras no Parlamento?
A mesma reflexão vale para a diversidade racial e para a representação das diferentes gerações e regiões.
Democracia representativa não significa apenas contar votos.
Significa também observar quem recebe o mandato para falar em nome da sociedade.
Quem representa as regiões de Mato Grosso?
Essa talvez seja uma das discussões mais interessantes que a eleição de 2026 pode produzir.
Mato Grosso é grande demais para ser analisado exclusivamente a partir da Baixada Cuiabana.
A Assembleia Legislativa possui 24 cadeiras para representar um Estado formado por 142 municípios e por realidades econômicas e sociais muito diferentes.
É legítimo, portanto, perguntar como essa representação está distribuída.
Quantos parlamentares possuem sua principal base política na Região Sul?
Quantos no Médio-Norte?
Quantos na Baixada Cuiabana?
E como ficam o Araguaia, o Norte, o Oeste e o Sudoeste nesse desenho?
Não se trata de defender uma divisão territorial das cadeiras.
Trata-se de refletir sobre equilíbrio, presença política e representatividade regional.
Um parlamentar não representa apenas o município onde nasceu ou onde recebeu mais votos — ele representa todo o Estado.
Ainda assim, conhecer a origem territorial das bancadas ajuda a compreender quais regiões possuem maior capacidade de influência política dentro do Legislativo.
E essa discussão será especialmente relevante em um Estado no qual os grandes centros eleitorais convivem com centenas de municípios menores, cada um com suas próprias necessidades e prioridades.
O eleitor diante de uma nova responsabilidade
Existe ainda uma mudança de comportamento que não pode ser ignorada.
O eleitor de 2026 vive em um ambiente de informação permanente.
Recebe notícias pelo celular, acompanha candidatos nas redes sociais, assiste a vídeos curtos, participa de grupos de mensagens e é exposto diariamente a opiniões, pesquisas, promessas e informações de procedência muito diferente.
A tecnologia tornou mais fácil chegar ao eleitor.
Mas também tornou mais difícil distinguir informação de propaganda.
Por isso, votar exige cada vez mais responsabilidade.
Conhecer a trajetória do candidato.
Avaliar suas propostas.
Verificar seus compromissos.
Observar seu histórico.
Entender o partido ou federação ao qual pertence.
E, principalmente, não entregar o voto apenas porque uma mensagem apareceu repetidamente na tela do celular.
A biometria pode confirmar a identidade de quem vota.
Mas nenhuma tecnologia decidirá corretamente por ele.
Essa responsabilidade continua sendo humana.
O poder começa na rua
Talvez essa seja a principal reflexão que Mato Grosso deveria levar para a eleição de 2026.
O poder político não começa no gabinete.
Começa na urna.
Não começa no deputado.
Começa no eleitor.
Não começa na Assembleia Legislativa.
Começa nos 142 municípios.
Os candidatos passarão.
Os partidos mudarão.
As alianças serão refeitas.
Os governos terminarão.
Mas o mandato concedido pelo eleitor produzirá consequências durante quatro anos — e muitas vezes por muito mais tempo.
Por isso, o voto não deveria ser tratado como mercadoria de campanha, troca momentânea ou apenas mais um número em uma estatística eleitoral.
O voto é uma procuração.
É o cidadão dizendo: eu confio a você o direito de me representar.
E uma procuração dessa dimensão deveria ser concedida com responsabilidade.
Sua Excelência, o Eleitor
No fim, todas as pesquisas, mapas, estatísticas e projeções precisam voltar ao mesmo ponto:
ao cidadão.
É ele quem decide.
É ele quem concede o mandato.
É ele quem pode cobrar.
É ele quem acompanha.
E é ele quem, na próxima eleição, poderá renovar ou retirar sua confiança.
Mato Grosso tem 142 municípios, mais de 2,6 milhões de eleitores e uma diversidade territorial, econômica e social que não cabe em uma única narrativa política.
Há o grande centro urbano e o pequeno município.
O agronegócio, a indústria e o comércio.
O trabalhador e o produtor rural.
O jovem e o eleitor mais experiente.
Mulheres e homens.
Diferentes origens, etnias e histórias.
Todos, porém, terão algo em comum diante da urna:
o poder de escolher.
Esses números não são apenas estatísticas eleitorais.
São o retrato de uma sociedade que, em 2026, terá nas mãos a decisão sobre quem receberá uma parcela do poder político de Mato Grosso.
É por isso que, em meio à disputa por votos, cargos, partidos e espaços de poder, talvez seja necessário recolocar o verdadeiro protagonista no centro do debate.
Não o candidato.
Não o partido.
Não a pesquisa.
Não a rede social.
O eleitor.
Porque, quando as urnas forem abertas, será a escolha de cada cidadão que determinará quem terá o direito de falar, legislar, fiscalizar e decidir em seu nome.
E, naquele momento, não haverá autoridade maior: Sua Execelência, o Eleitor.
Stéphano Benevides do Carmo é ex-secretário de educação profissional e ensino superior da Seciteci MT, atual diretor da classe A Agro


