Pioneiros da Cuiabá-Santarém

No último dia 2 de setembro os pioneiros que construíram a rodovia Cuiabá-Santarém na década de 1970, inaugurada em 1976, reuniram-se para comemorar os 50 anos da rodovia. Recebi o convite do pioneiro Walmor Faé e do tenente Antonio Carlos, mas lamentei não poder ir.
Tenho profunda admiração por essa rodovia. Especialmente pelo motivo de sua construção e pelo pioneirismo da aventura na floresta desconhecida de Mato Grosso com os meios que se tinha na época.
O encontro dos pioneiros foi na região de São Cristóvão, 40 quilômetros antes de Lucas do Rio Verde. Comemorou-se com uma placa os 50 anos do marco inicial do começo da obra. Depois teve uma homenagem da prefeitura de Lucas do Rio Verde. Visto assim, 50 anos depois, não parece que aquele pioneirismo seja reconhecido aos olhos dos atuais mato-grossenses com o valor estratégico que teve.
A rodovia nasceu da necessidade de se integrar a Amazônia até o porto fluvial de Santarém, dentro do propósito estratégico nacional de ocupar a Amazônia a partir de Cuiabá. O objetivo estava no lema “integrar pra não entregar”. Movimento internacional defendia a tese de que a Amazônia não era só brasileira. O governo militar da época, General Garrastazu Médici, decidiu pela integração da Amazônia.
A obra ficou a cargo do 9º. Batalhão de Engenharia de Construção, oriundo do 3º. Batalhão Ferroviário, de Carazinho-RS. O 9º. BEC levaria a obra até Cachimbo, em Mato Grosso, 793 km. Já o 8º. Batalhão de Engenharia e Construção, sediado em Santarém, no Pará, desceria com a obra do Norte para o Sul e se encontrariam em Cachimbo. Ali foi a inauguração.
Vieram militares do Rio Grande do Sul e uma grande frota de máquinas em cima dos recém-comprados caminhões FNM até Cuiabá. Nas condições inóspitas da obra, morreram 21 pessoas, entre militares e trabalhadores civis. Vi trecho em construção na região da atual Nova Mutum. Era a mais pura aventura.
Ao longo da BR-163 nasceram os municípios de Sinop, Alta Floresta Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Marcelândia, Sorriso, Novo Progresso e Trairão. Esses dois últimos no Pará.
O propósito da integração da Amazônia, acabou mesmo acontecendo. Hoje metade da produção de Mato Grosso escoa-se pelos portos de Miritituba e de Santarém, no Pará, desafogando as rodovias para portos do Sul e Sudeste.
Nos anos de 1970 a Amazônia foi tema europeu e se pretendia abrir uma discussão mundial liderada pela França pela ocupação internacional da Amazônia. Hoje o tema mudou de discurso, mas ainda não morreu. Caso venha a ser levado adiante, serão outros os argumentos e outras as ações internacionais.
Lá atrás um grupo de pioneiros garantiu a abertura da floresta com as máquinas disponíveis e deu à região a soberania que naquele momento corria risco.
Hoje, todos pioneiros de cabelos brancos. Muitos já partiram. Ficou uma história de vidas e de pioneirismo.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso


