Mendonça retira sigilo de inquérito e expõe relação entre Moraes e Vorcaro
O relatório reúne mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes entre 4 e 17 de novembro de 2025

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens trocadas entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes. A decisão ocorreu pouco depois de o Estadão revelar conversas nas quais o banqueiro pedia ao magistrado que atuasse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para conter o avanço das investigações sobre o banco.
O relatório reúne mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes entre 4 e 17 de novembro de 2025, período que antecedeu a primeira prisão do banqueiro. Nas conversas, Vorcaro pergunta se deveria deixar o País para evitar a prisão e faz referências a delegados e procuradores envolvidos nas apurações.
As mensagens foram extraídas do celular de Vorcaro, apreendido na primeira fase da Operação Compliance Zero. Como eram enviadas em formato de visualização única, por meio de capturas de tela, a investigação teve acesso apenas ao conteúdo encaminhado pelo banqueiro, sem recuperar as respostas de Moraes.
Na decisão, Mendonça justificou que os novos elementos precisam ser examinados pelo plenário do STF e, por isso, a deliberação deve ocorrer de maneira pública e transparente. O despacho aponta ainda que a análise do celular de Vorcaro revelou indícios de que o banqueiro tinha conhecimento antecipado de procedimentos investigatórios e de apurações em curso no Banco Central (BC). As conversas, segundo Mendonça, também sustentariam a hipótese de que ele teria tentado obter a intervenção de autoridades públicas responsáveis por decisões relacionadas às investigações e fiscalizações.
TEOR DAS MENSAGENS ENTRE VORCARO E MORAES
Entre os diálogos reunidos no relatório da PF, há mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes nos dias que antecederam sua prisão. O banqueiro procurou o ministro dois dias antes de ser detido, quando se preparava para deixar o País em um avião particular com destino a Dubai.
Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na mesma conversa, fez questionamentos sobre um juiz identificado como Ricardo, quis saber se o então presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tinha conhecimento da situação e perguntou se havia algo que pudesse ser feito.
No dia seguinte, 16 de novembro, véspera da prisão, Vorcaro voltou a escrever ao ministro. “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. Segundo a investigação da PF, o conteúdo dos diálogos levanta a hipótese de que Moraes tenha repassado ao banqueiro informações sobre o andamento da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências planejadas pela corporação.
VORCARO TAMBÉM QUESTIONOU POSSÍVEIS MEDIDAS DA PF
As mensagens anteriores à prisão também mostram Vorcaro tentando descobrir quais medidas estavam sendo preparadas contra ele. Em 4 de novembro, o banqueiro perguntou a Moraes: “Médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”.
Na sequência, insistiu sobre a possibilidade de impedir uma eventual ação. “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”, escreveu. Horas depois, Vorcaro afirmou que aguardaria novas informações do ministro. “Vou ficar acordado então aqui pra te aguardar.”
Mais tarde, às 20h45, voltou a pedir que Moraes atuasse para evitar uma medida que, segundo ele, poderia comprometer o Banco Master. “Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um explicar qualquer coisa, mas uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível. Se puder me deixe uma mensagem após falar com ele”, escreveu.
PEDIDO PARA ADIAR MEDIDAS
A preocupação com uma possível operação da PF aparece novamente em outras mensagens, como em uma enviada no dia 16 de novembro, um dia antes da prisão. Às 16h57, Vorcaro perguntou a Moraes se Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, poderia adiar o cumprimento das medidas que estariam prestes a ser executadas.
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu.
Segundo investigadores, a insistência do banqueiro e o conteúdo das conversas indicam que ele poderia ter conhecimento antecipado de medidas que seriam cumpridas na primeira fase da Operação Compliance Zero. Dois dias antes, em 15 de novembro, Vorcaro já havia questionado a possibilidade de interromper o avanço das investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, escreveu ao ministro.


