Lembrança e esquecimento. Eis a questão

Muito se aclama a lembrança, e muitas vezes ela é colocada não só em oposição ao esquecimento, mas como qualidade enquanto este seria defeito. Neste artigo proponho uma visão acerca dos dois opostos, e uma reconciliação desse paradoxo.
O esquecimento teria efeitos negativos a ser considerados, tais como levar a perda de um compromisso ou de uma lembrança afetiva diluída ou esmaecida sob os impactos desse agente. Porém, a coisa não é tão linear como pode parecer, e possui complexidades envolvidas, nuances que trago a reflexão adiante.
A lembrança permite nos ligar em um elo com o passado, permitindo nos identificar como seres contínuos, ao passo que o esquecimento pode levar a perda dessa identidade em casos extremos como o Alzheimer. Outro fator meritório da lembrança é que ao ser resgatada, ela nos permite utilizar desses dados armazenados na memória e planejar futuros hipotéticos, evitar incursão em riscos conhecidos pela experiência adquirida e ainda expandir conhecimento ao ser analisada com novos dados de percepção e análise, dentre outras coisas.
Esquecimento e lembrança são como dois dançarinos dançando a dança do tempo. O esquecimento abre espaço para o avanço do tempo, surgimento de novos cenários, personagens, relações, transformações, também atua na substituição de todos esses elementos mencionados, é a face da impermanência. A lembrança resgata o momento decorrido no território da memória e evidencia o decurso do tempo. Pela lembrança à mente se retomam os cenários, personagens, relações e transformações, e ela garante a relação de continuidade e identidade como um ser em transformação, evidenciando nossa jornada em vida.
Inicialmente foram mencionadas as causas que podem ser consideradas como nocivas atribuídas ao esquecimento. Porém o esquecimento não é só feito de mazelas, como agente do tempo ele pode auxiliar a pessoa a superar seus traumas tornando a dor da experiência vivida menos impactante a medida que a faz desvanecer. Além disso pode alimentar a esperança de um futuro após um evento danoso que possa ter exaurido a fé de uma pessoa, pois a medida que a experiência vivida é substituída por outras novas ou ainda ressignificada, o esquecimento atuará como possibilidades potenciais ao abandonar o foco antes centrado na desilusão, o que não permitia ver novos horizontes (o impossível era apenas uma situação de mentalidade estagnada e cerceada).
No mesmo sentido abordado no parágrafo anterior, a lembrança, primeiramente trazida como algo desejável, pode atuar com força oposta e ser nefasta. A lembrança pode prolongar por tempo muito extenso o sofrimento, como no caso de uma perda, ressentimento, traumas, pode também alimentar sentimentos de vingança ou ódio e associar experiências ruins vividas outrora a novas ocasiões que não possuem relação de similaridade (afetando, assim, outra relação por uma situação não atribuída a esta, mas a padrões erroneamente a ela associados, ou ainda reduzindo as potenciais oportunidades).
Uma forma de tratar a situação proposta seria observá-la de outra forma que não seja polarizada, mas ambivalente. Lembrança e esquecimento são efeitos sobre os quais, muitas vezes não temos domínio, salvo ressalvas de registros externos, tais como fotografias, diários, entre outros que auxiliam na manutenção ou acesso da lembrança, agindo sobre o esquecimento na medida em que proporciona uma ponte que liga ou reforça uma situação experimentada.
O esquecimento, nesse mesmo âmbito, não pode ser causado voluntariamente, até mesmo porque ao buscá-lo se estaria reforçando a invocação da memória da qual se pretende afastar; a saída, neste caso, seria ressignificar lembranças dolorosas, ou outra coisa da qual se pretende esquecer, reconhecendo isto e lhe atribuindo um significado que proporcione um avanço ou, talvez, uma forma nova de encarar e atribuir valor ao percalço que pode ter agregado em matéria de aprendizado.
Diante da análise feita e da crítica discorrida seria prudente considerar lembrança e esquecimento sob a ótica daquilo sobre o que estes agentes atuam, e não em si mesmos. Há quem diga que a lembrança é indispensável para o aprendizado, mas também é preciso reconhecer que o esquecimento, de forma semelhante, atua desfazendo-se de dados considerados desnecessários, proporcionando otimização para retenção de coisas consideradas de maior importância – colaborando, assim, para o aprendizado por meio da neuroplasticidade cerebral.
Então, não há como tomar partido unilateral nessa relação entre lembrança e esquecimento, ambos são mecanismos uteis e necessários a uma boa performance do sistema cerebral.
Flávio Espunier Costa é advogado e graduando filosofia.


