Antagonismo político agudizado

E cá estamos nós novamente diante das urnas, tão eletrônicas e confiáveis como sempre. E cá estamos nós, mais polarizados do que nunca antes em nossa história. Cada um de nós, com nossas individualidades, tem ajudado a formar dois blocos de tipos divergentes de seres humanos, politicamente falando, posto sermos social e historicamente construídos.
Com o resultado do 1º turno das eleições (em 04/10), toda nossa divergência ficou mais visível diante de dois projetos antagônicos para nosso país. Sim. Mais do que dois candidatos, temos, na verdade, dois projetos políticos em acirrada disputa: 1º) o que busca dar continuidade ao cambaleante, mas indispensável, Estado Democrático de Direito, em declínio mundial; 2º) o que se insere na linhagem neonazifascista, em ascensão planetária, hoje, capitaneada pelo líder mor dos EUA. Mas antes de falar do significado e abrangências políticas disso, falarei de semelhanças que vi no dia e no local em que votei.
Começo registrando um generalizado silêncio. Com quem falei sobre isso, a descrição das cenas foi parecida em diversos lugares: o silêncio só era quebrado por conta de uma impertinente tosse, um incontido espirro, um cumprimento meio sem graça, aqui e acolá, uma briga… de alguns cães que perambulam sem noção e rumo.
Aliás, esse comportamento já se notava no percurso do caminho às urnas e arredores dos locais de votação. Aquela colorida alegria das festas democráticas parecia estar macambúzia, sorumbática. Excetuando um ou outro eleitor mais apaixonado, talvez, sem a devida percepção da dura realidade, a maioria de nós estava descaracterizada, trajando roupas que nem de longe poderiam sugerir aproximação com signos visuais de partidos e candidatos, fossem quais fossem. Ironicamente, parecíamos iguais.
Mas não éramos e não somos iguais; quando muito, iguais aos “nossos pais”, como trata Belchior em uma de suas canções. As cizânias que ocorrem em grupos de colegas de trabalho, de amigos, de famílias… são provas desse antagonismo político/existencial. Todavia, pontualmente, parece que algumas coisas, antigas e recentes, acabaram nos jogando nesse estado de espírito mais circunspecto. Mas quais coisas, afinal, teriam provocado esse sentimento de semelhança entre dessemelhantes?
Tentando a síntese, avalio que, muito disso, pode estar na corporificando dos dois projetos. De um lado, um candidato à reeleição que teve a audácia de não ir ao debate mais aguardado e importante da campanha; pior: que ainda acionou uma juíza eleitoral, de sua própria indicação ao TSE, para melar as regras antes acordadas. Mais: pelo menos dois políticos, de absoluta confiança, além de uma criatura de sua descendência genética, apareceram em denúncias que os aproximaram de um “máster” banqueiro golpista, mas paparicado como “irmão” por meio mundo da elite de nossa República, incluindo alguns sujeitos togados do STF, e, até mesmo, o outro candidato da polarização; este, sem dó e nem piedade, escarniou os seus seguidores.
Numa ligação de celular, ao mesmo e tal “irmão” banqueiro “máster”, o representante da extrema direita brasileira pediu, em dólar, o equivalente a 134 milhões de reais para financiar um filme – “Dark Horse” (cavalo escuro ou, metaforicamente, o azarão) – sobre a vida de seu genitor; ou seja, o “mito”, que hoje se encontra em prisão domiciliar e com o uso de uma “electronic ankle monitor”. Todavia, investigações da PF estão em curso para checar se, na verdade, muito dessa montanha de dinheiro, que faz até Hollywood olhar espantado, não teria sido para bancar o irmão, agora de sangue mesmo, que fugiu para os EUA por conta de crimes aqui cometidos.
A família desse mesmo candidato idolatra cegamente os mitos estadunidenses. Ao que tudo indica, antes do atual líder de cabelos alaranjados de lá, parece que o clã político brasileiro em pauta já adorava o Tio Sam, aquele senhor grisalho que, desde a 1ª Guerra Mundial, aponta o indicador a quem o olha e diz: “I Want You for U.S. Army” (“Eu quero você para o Exército dos EUA”). Tem-nos, “of course, Sir”, diria qualquer um da família, sequiosa e já com contatos estabelecidos para entregar nossas terras raras e “others things, of course”, que o poderio dos EUA possa desejar.
Mas tem mais complexidades sobre esse candidato, que se faz passar pelo mocinho exemplar da honestidade: assim como o seu pai-mito, que homenageou o coronel Ustra, um dos mais cruéis dos ditadores brasileiros, ele adora condecorar criaturas que são irrefutáveis erros da natureza, como, p. ex., aqueles dois policiais que foram apontados pelo MP-RJ como chefes e integrantes de milícias e grupos de extermínio, e que estiveram envolvidos também no assassinato de Marielle Franco. Intrigantemente, um deles foi morto dentro de um presídio da Bahia. Filme conhecido.
Em linha próxima disso, recursos de emendas parlamentares indicados pelo mesmo candidato foram direcionados a entidades investigadas por irregularidades, fraudes fiscais e ligações com milícia, conforme destemidas apurações jornalísticas divulgadas recentemente. Dúvida minha: como investir contra facções criminosas, como é proposto pelo candidato da extrema direita, se o crime organizado trabalha, há anos, na lógica co-existencial da “narcomilícia”, ou seja, de tudo e todos juntos e misturados?
E há outras questiúnculas, do tipo “chocolate pequeno”, como a prática das rachadinhas, o nebuloso mundo contábil de uma loja de… chocolate, e, é claro, a aquisição de uma mansão, em Brasília, de aproximadamente 6 milhões: uma bagatela três vezes o valor de um famoso triplex no Guarujá.
Diante desse quadro, quem não queria votar em corrupto, e queria ver todos os ladrões do país na cadeia, deve alguma explicação, pelo menos a si próprio. Muito por conta desse panorama em nada exemplar, a maioria votou, no 1º turno, nos dois candidatos mais rejeitados do que aceitos.
Assim, quem votou no candidato progressista, confundido como de esquerda, optou pelo projeto de manutenção do Estado Democrático de Direito: um modelo de organização política e jurídica em que, via Constituição, o poder emana do povo e as leis valem para todos, inclusive a governantes; e toda imperfeição que há, e há muitas, pode ser denunciada/investigada por conta da liberdade de expressão e da atuação da imprensa; aliás, sob a égide da imprensa livre, alguns dos grandes veículos nacionais vêm difundindo, há anos, um verdadeiro pânico em nosso povo. Em outras palavras, vêm construindo diariamente um conjunto criminoso de discurso de ódio, alguns sob o manto do humor. Poucos entendem a profundidade e a extensão desse tipo de jornalismo jocoso.
Em contrapartida, quem votou no outro candidato, conscientemente ou não, chancelou o arcabouço político daquilo que mundialmente se tem chamado de projeto neonazifascismo, ou seja, a adaptação contemporânea das ideologias fascista (de Mussolini, na Itália) e nazista (de Hitler, na Alemanha), ambas do século passado.
Nessa linhagem ideológica, que olha para trás e não para frente, está a força do ultranacionalismo radical, do autoritarismo generalizado, da violência multifacetada, principalmente, contra a classe trabalhadora, e da intolerância; em suma, da negação da humanidade, que deveria fazer parte ontológica de todos nós que ajudamos a compor a nossa complexa e desafiante espécie.
Todavia, esse atraso político e existencial da humanidade se modernizou, como, aliás, fazem as variações do crime organizado, de mãos dadas com as milícias, para atuar por dentro das democracias liberais, assim como no ambiente digital, quase sempre tóxico, principalmente aos incautos, que abundam alhures, vivendo e inflando a vida das bolhas das redes sociais, verdadeiras pragas deste tempo já bastante e, por si, sombrio.
Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. em Ciências da Comunicação/USP.


