A curta passagem

As pessoas se assemelham em sua essência e, por isso, ninguém deveria ser diminuído, desprezado ou excluído em razão de sua condição ou circunstância de vida. Aquele que possui poucos recursos materiais não é menor do que aquele que habita os palácios da riqueza, pois a dignidade humana não conhece títulos, não se curva diante de fortunas e não se submete ao poder do dinheiro.
Afinal, quantas vezes encontramos milionários aprisionados em uma profunda miséria emocional, procurando nos medicamentos o alívio para suas angústias e a recuperação de um equilíbrio que o dinheiro, por si só, jamais poderá lhes proporcionar?
Há riquezas que não cabem nos cofres, assim como existem pobrezas que nenhuma fortuna consegue esconder. A verdadeira riqueza também reside na capacidade de amar, de sentir, de repartir alegrias e de reconhecer o privilégio extraordinário de estar vivo.
A passagem do ser humano por este mundo é breve, embora o tempo que nos é concedido seja suficiente para semearmos sentimentos nobres ou cometermos erros cujas consequências podem atravessar os anos.
Nesse breve percurso, muitas vezes julgamos sem compreender, condenamos sem conhecer e ferimos sem medir a profundidade das marcas que deixamos na alma alheia. Movidos pelo orgulho, pelo individualismo ou pela incapacidade de administrar nossas próprias emoções, transformamos pequenas divergências em grandes distâncias e permitimos que nossas fraquezas assumam o comando de nossas atitudes.
Esquecemo-nos de que somos todos aprendizes da existência, sujeitos a tropeços, contradições e momentos de fragilidade. Ainda assim, insistimos em classificar as pessoas segundo os critérios limitados de nossa própria visão, como se tivéssemos recebido o direito de determinar o valor de cada ser humano.
Nos diferentes ambientes sociais, encontramos aqueles que se colocam em posição de superioridade simplesmente porque acumularam bens, conquistaram prestígio ou alcançaram uma condição financeira privilegiada. Entretanto, quando se trata de dignidade, ninguém está um degrau acima ou abaixo de seu semelhante.
O dinheiro pode comprar conforto, abrir portas e facilitar caminhos, mas jamais deveria servir de instrumento para medir a grandeza de uma pessoa. Infelizmente, estamos permitindo que a fraternidade ceda espaço à indiferença, que a amizade se enfraqueça diante dos interesses e que a igualdade humana seja sufocada pelas aparências.
Somos julgados pelo que possuímos, pelo que sabemos, pela maneira como nos apresentamos, pela fama que carregamos e até pelas circunstâncias que a vida nos impôs. Pouco se pergunta sobre a bondade que habita um coração, sobre as batalhas silenciosas que alguém enfrenta ou sobre as lágrimas que se escondem atrás de um sorriso.
A ditadura do preconceito permanece presente em nossa convivência, disfarçada em gestos, palavras, olhares e atitudes que, muitas vezes, passam despercebidos por aqueles que os praticam. É uma das mais cruéis enfermidades do comportamento humano, pois transforma diferenças naturais em barreiras, particularidades em motivos de rejeição e opiniões divergentes em justificativas para o afastamento.
O preconceito ergue muros onde poderiam existir pontes, alimenta distâncias onde deveria florescer a compreensão e transforma o convívio humano em um território de disputas, desconfianças e exclusões. Seu poder destrutivo não está apenas na ofensa explícita, mas também naquela indiferença silenciosa que faz alguém sentir-se invisível em meio à multidão.
Julgar uma pessoa pela aparência é limitar o alcance da própria inteligência e fechar os olhos para a riqueza de experiências que cada existência carrega. Por trás de cada rosto existe uma história; por trás de cada comportamento, podem existir dores que desconhecemos; e, por trás de cada silêncio, talvez estejam escondidas batalhas que jamais tivemos de enfrentar.
Ainda assim, quantas vezes escolhemos nossos relacionamentos pela conveniência, formamos grupos pela afinidade de interesses e afastamos aqueles que não correspondem às nossas expectativas? Sem perceber, podemos nos tornar responsáveis por tristezas, humilhações e injustiças que jamais imaginamos provocar.
Há palavras que ferem profundamente, atitudes que roubam a confiança e decisões que desrespeitam direitos e comprometem a dignidade alheia. Quando a insensibilidade ocupa o lugar da consciência, a injustiça encontra terreno fértil para crescer.
Quando passamos a viver exclusivamente em função do supérfluo, da vaidade e da acumulação de bens, corremos o risco de atravessar a existência perseguindo aquilo que termina, enquanto negligenciamos aquilo que verdadeiramente permanece.
A riqueza material, por mais grandiosa que seja, não nos concede o poder de prolongar indefinidamente a vida, tampouco nos protege de todas as inquietações da alma.
O tempo passa, os aplausos se silenciam, os cargos perdem seu significado e os bens acumulados podem deixar de representar qualquer importância diante das perguntas que surgem quando olhamos para o caminho percorrido.
E então, se não tivermos cultivado o amor, a amizade, a solidariedade e a paz interior, poderemos descobrir, tarde demais, que dedicamos nossos melhores anos à conquista de coisas e deixamos de cuidar das pessoas e dos sentimentos que davam sentido à nossa caminhada. Nesse vazio, o tédio, a angústia e a solidão podem encontrar morada, mesmo entre aqueles que parecem possuir tudo.
A vida é uma curta passagem, uma travessia cujo tempo não nos pertence inteiramente e cujo destino final desconhecemos. Chegamos trazendo apenas a possibilidade de viver e partimos sem levar conosco as riquezas que acumulamos, os títulos que conquistamos ou as posições que ocupamos.
O que permanece, entretanto, é aquilo que conseguimos imprimir na memória e no coração daqueles que cruzaram nosso caminho. São os gestos de bondade, as palavras de incentivo, os abraços oferecidos nos momentos difíceis, as mãos estendidas sem interesse e a capacidade de respeitar o outro mesmo quando suas escolhas são diferentes das nossas.
Por isso, antes de julgar, procuremos compreender; antes de excluir, ofereçamos a oportunidade do acolhimento; antes de alimentar o orgulho, permitamos que a humildade nos ensine a enxergar a humanidade que existe em cada pessoa. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta nesta jornada, mas podemos escolher a qualidade dos sentimentos que espalhamos enquanto caminhamos.
A vida é breve demais para desperdiçarmos o tempo construindo diferenças, alimentando preconceitos e cultivando vaidades. Que, ao encerrarmos nossa passagem por este mundo, deixemos como herança não o tamanho da fortuna que acumulamos, mas a grandeza do bem que praticamos. Afinal, diante da brevidade da existência, vale muito mais construir pontes de amizade do que muros de preconceito.
Wilson Carlos Fuáh – Escritor, radialista, cronista e observador atento da vida política e social de Mato Grosso, é graduado em Ciências Econômicas. Fale com o Autor: wilsonfua@gmail.com


