Decisão dos EUA de classificar PCC e CV como organizações terroristas preocupa especialistas
Decisão dos EUA acende alerta no Brasil sobre soberania, cooperação policial e impactos diplomáticos

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira (28/05) que irá classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês). A medida passa a valer em 5 de junho, após publicação oficial no Federal Register.
Segundo comunicado do Departamento de Estado, a decisão foi tomada com base na Lei de Imigração e Nacionalidade dos EUA e em uma ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump.
A classificação amplia o alcance das autoridades norte-americanas para aplicar sanções, bloquear bens e intensificar investigações ligadas às organizações. Nos bastidores, o governo brasileiro tentava evitar essa designação nos últimos meses.
A preocupação de integrantes do Executivo e de especialistas em relações internacionais é que a medida abra espaço para ações mais agressivas dos EUA na América Latina sob o argumento de combate ao “narcoterrorismo”.
Especialistas se preocupam
Especialistas ouvidos por diferentes setores da diplomacia avaliam que a mudança também pode afetar a cooperação entre Brasil e Estados Unidos em investigações conjuntas. Isso porque informações compartilhadas entre órgãos de segurança poderiam passar a ter outro nível de classificação e controle, concentrando dados em agências de inteligência norte-americanas, como a CIA, ou em estruturas militares.
Na prática, isso poderia dificultar trocas de informações e comprometer operações conjuntas já em andamento.
O debate ganhou força porque a política externa do novo mandato de Donald Trump vem adotando um discurso mais duro em relação à América Latina. O governo norte-americano tem defendido ações de combate ao chamado “narcoterrorismo” e ampliado operações militares e de vigilância na região do Caribe.
Nas últimas semanas, forças militares dos EUA realizaram ações contra embarcações suspeitas fora do território norte-americano, alegando combate ao terrorismo e ao tráfico internacional.
Histórico de intervenções
O temor de analistas é que o enquadramento de facções como organizações terroristas crie precedentes para intervenções mais amplas, seguindo uma lógica semelhante à utilizada pelos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro de 2001.
Na época, os EUA lideraram a invasão do Afeganistão com o objetivo de derrubar o Talibã e combater a Al Qaeda. Apesar da rápida tomada de Cabul, a guerra se estendeu por duas décadas, marcada por atentados, aumento da violência e instabilidade política. O conflito terminou em 2021, quando o governo de Joe Biden retirou as tropas americanas do país, permitindo a retomada do poder pelo Talibã.
Encontro com Lula
Neste mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na Casa Branca e discutiu com Donald Trump mecanismos de cooperação para combater organizações criminosas transnacionais e asfixiar financeiramente grupos ligados ao tráfico. Segundo Lula, porém, o encontro não tratou especificamente do PCC e do Comando Vermelho.


