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‘Casos importantes como o da JBS não ficam mais na sala de espera’, diz presidente da CVM

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Às vésperas de encerrar seu mandato, Leonardo Pereira afirma que o endurecimento de penas e a instituição de acordos de leniência têm aumentado a proteção do investidor no mercado brasileiro

Da Redação

 

A poucos dias de encerrar seu mandato à frente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Leonardo Pereira diz que a limpeza do estoque de processos administrativos do órgão regulador aliada ao fortalecimento de suas penas e à instituição de acordos de leniência cria uma caixa de ferramentas mais completa para a proteção do investidor no mercado brasileiro.

“Hoje quando você tem um caso importante ele não fica mais na sala de espera do consultório médico. O caso da JBS foi direto. Chegou ao consultório e não tinha fila (para instauração do inquérito)”, disse ao Broadcast, negando qualquer interferência governamental na abertura de inquéritos para apurar o uso de informação privilegiada pelos controladores do grupo às vésperas da delação bomba de Joesley Batista.

As mudanças do arcabouço vieram com a edição da MP 784 – que elevou em mil vezes o teto das multas da CVM, para R$ 500 milhões –, em 8 de junho, um dos principais pleitos da gestão de Pereira junto ao Ministério da Fazenda, e do Planejamento Estratégico para uma década, idealizado por ele em 2013. A idade dos casos aguardando instauração de inquérito na casa caiu de sete anos para um ano.

Pereira deixará a casa sem ver o veredicto dos processos abertos contra a Petrobrás em decorrência da Lava Jato, mas diz que estão encaminhados.

Executivo forjado no setor privado, ele acredita que a ancoragem das multas arbitradas pela CVM no novo cenário se dará aos poucos, mas acalma o mercado: “Ninguém quer ser justiceiro.” Apesar disso, admite que multas mais altas se refletirão em acordos mais caros para a extinção de processos.

‘Julgamento da JBS é prioridade’, diz presidente da CVM

Ao longo dos últimos quatro anos e oito meses a CVM julgou 234 processos sancionadores, abriu 64 audiências públicas e editou 57 novas instruções normativas para o mercado de capitais. Na reta final, a expectativa é que ainda saia do forno a norma que regulará o crowdfunding (financiamento coletivo).

Após deixar a CVM nesta sexta-feira, 14, Pereira terá que passar por quarentena. O plano antes de decidir seu futuro profissional é participar de um programa na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, onde dará expediente a partir de setembro.

Qual a diferença entre a CVM que o senhor assumiu e a de hoje?

Acho que estou entregando uma CVM que acompanhou as mudanças da sociedade. Um bom exemplo foi o debate sobre a regra de crowdfunding (ofertas de empreendedores de menor porte para captar recursos via plataformas de investimento participativo), que está para sair. Quando assumi (2012) elenquei prioridades como governança, educação financeira e proteção ao investidor. Achei que o Brasil ia para um lado, mas foi para outro e esses pontos ficaram ainda mais importantes. A reforma do Novo Mercado e o Código de Governança saíram, mas continuamos com o grande desafio de trazer isso para a vida real.

A CVM continua sendo acusa de demorar a agir e punir…

Limpamos os estoques. Temos quatro salas. Na primeira sala, onde ficam apurações iniciais, os prazos caíram de 11 para 2 anos. A idade dos processos aguardando a instauração de inquérito foi reduzida de 7 para 1 ano e a dos inquéritos em instrução caiu de 7 para 3 anos. A quarta é o colegiado, que hoje tem a meta de julgar os processos em dois anos e meio do momento em que o relator o receber. No caso da JBS, em 15 dias você teve apuração e passou direto para a terceira sala (com instauração de dois inquéritos).

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A agilidade no caso JBS foi comentada. A companhia se disse vítima de retaliação. Houve interferência do governo na atuação da CVM?

Claro que não. Se o túnel (de tramitação de inquéritos) estivesse obstruído isso não teria sido possível. Hoje quando você tem um caso importante ele não fica mais na sala de espera do consultório médico. Na primeira sala o paciente se sentiu mal, na segunda foi para o consultório, na terceira foi atendido e, na quarta, é operado. O caso da JBS foi direto. Chegou no consultório e não tinha fila (para instauração dos inquéritos).

Como estão sendo conduzidas as investigações das suspeitas de ‘insider trading’ (negociação com informação privilegiada) ocorridas às vésperas da delação da JBS?

Divulgamos comunicados (sobre os processos abertos) e vamos continuar listando todos os casos com total transparência. É isso que a sociedade pode cobrar. Provavelmente haverá mais inquéritos. Temos uma reunião semanal sobre o assunto.

O sr. tem alertado para o risco do déficit de servidores na CVM…

O regulador pode ter as melhores técnicas, mas se não tiver pessoas pode ter um problema. É matemática. Você vai ter que deixar de fazer coisas e priorizar.

Casos relevantes como JBS e Petrobrás podem ser prejudicados?

Talvez não afete, mas você deixe de fazer um ofício de alerta, de dar um stop order (suspensão de atuação irregular no mercado). Vai ter que restringir a análise de amostras do programa de supervisão, demorar mais a fazer um plano de revisão de balanços. Você passa a tomar riscos indesejados.

O contingenciamento afetou os investimentos em tecnologia?

Apesar de tudo conseguimos implantar um novo sistema de supervisão de mercado. Precisamos integrar a base de dados. Não podemos virar um grande depositário de dados. O regulador tem que ser uma central de inteligência. Para isso, vamos precisar de investimento.

Na sua gestão casos de corrupção chegaram à CVM. Quais as lições?

É novo e a CVM está preocupada. Temos que ter o cuidado de não tirar nosso chapéu e trabalhar com outros órgãos. A CVM não é a responsável por julgar atos de corrupção, mas tem que assegurar que os deveres fiduciários sejam exercidos. Por isso a preocupação em incentivar instrumentos de governança que impeçam falta de conduta. Governança passa por ética. Se houve um ato de corrupção que trouxe prejuízo à empresa, é preciso avaliar se isso aconteceu por falta de diligência ou lealdade dos administradores. O caso Visanet – em que a CVM condenou o ex-diretor do BB, Henrique Pizzolato, à pena máxima por quebra do dever de lealdade ao desviar recursos do Fundo Visanet – é referência.

Alguns acharam alto o novo teto de multas instituído pela MP 784 (R$ 500 milhões). Teve pressão para reduzir o valor no Congresso?

Um debate democrático tem que existir e vamos defender o que está na MP. Ela criou uma caixa de ferramentas mais completa para proteger o investidor, com penas maiores e a possibilidade de acordo de leniência. Com uma pena maior o acordo de leniência (em que o infrator admite a culpa, ajuda nas investigações e tem uma pena mais branda) pode ser atraente. A pena de R$ 500 mil estava no custo da transação. Ninguém está querendo ser justiceiro.

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O valor dos acordos para extinguir processos sem julgamento (termos de compromisso) vai subir proporcionalmente ao das multas?

Sem dúvida. Acho que as contrapartidas nos termos de compromisso ficavam muito apertadas. O termo é um atalho para evitar toda a discussão de um processo sancionador. Você não admite culpa e resolve rápido. (O aumento do teto da multa) Vai dar mais flexibilidade para os termos de compromisso.

Um dos pontos polêmicos da MP 784 foi o acordo de leniência. No caso da CVM, ele será sigiloso?

É um ponto que estamos avaliando ainda. Não estamos recebendo ainda propostas de acordo de leniência. Primeiro queremos regulamentar. Todos os pontos da MP a serem regulamentados serão colocados em audiência pública.

O mercado ficou tenso com o impacto de eventual delação do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci sobre os bancos. A CVM teme um abalo sistêmico no caso de fundos, sob sua supervisão?

A CVM lidou com várias crises e pode lidar com outras. Estamos equipados para isso. Acabamos de ter uma inspeção internacional do Financial Stability Board (FSB), com bons resultados. A conclusão é que nossa indústria está segura e é resiliente a choques. O temor seria haver falta de liquidez e um efeito sistêmico em dominó. Fazemos muitos testes de estresse nos ativos e a indústria brasileira de fundos está passando. É uma indústria ampla e com riscos contornáveis. Hoje 60% dos recursos são aplicados em títulos públicos.

Que tipo de ajuste a CVM pode propor como emenda à MP?

A inclusão do whistleblower (denunciante de infrações) é uma possibilidade. O fundamental é manter o espírito da MP, de melhorar as ferramentas para termos uma ação sancionadora proporcional e que proteja o investidor.

Qual o resultado da força-tarefa de combate ao crime de insider trading criada em sua gestão?

Teremos inquéritos piloto com a nova metodologia. O resultado virá com peças acusatórias mais robustas e que permitam uma avaliação mais precisa. E pela troca de informações entre órgãos, por ter filtros mais reais e pessoas nas equipes com expertise nesses casos. O que não pode é a CVM julgar vários casos e não conseguir condenar em nenhum.

O senhor sai sem participar do julgamento de casos da Petrobras relativos à Lava Jato…

Os casos da Petrobrás não foram julgados, mas as instruções estão prontas. Existe uma construção. O que é melhor? Ter instruções mais sólidas, inquéritos mais fortes ou ter mais casos e o colegiado não conseguir penalizar por não ter evidências suficientes?

Quais os reflexos da crise política para o mercado brasileiro?

O mercado de capitais existe e é ativo quando há confiança e transparência. Na CVM fazemos todo o esforço para as regras de transparência estarem cada vez melhores. A confiança vem de fora. A situação macro afeta a confiança e pode levar à postergação de decisões de investimento. Hoje temos no Brasil uma melhora na situação econômica, mas questões políticas ainda não estão resolvidas. 

 

 

 

 

Fonte: O Estado de S. Paulo

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Prefeitura de VG fornece transporte gratuito a pequenos produtores rurais

Somente nestas duas primeiras semanas do ano, já foram transportadas três cargas de mudas de capiaçu para comunidades Sadia 1 e Umuarama, além de outros insumos

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SECOM VG

A Prefeitura de Várzea Grande, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural Sustentável (SEMMADRS), realizou o transporte gratuito de uma carga de capiaçu (capim) no assentamento Nossa Senhora Aparecida 1 (Sadia 1), o que vai beneficiar 11 famílias que vivem da agricultura. Esta é a segunda entrega de mudas de capim na comunidade rural. A primeira ocorreu na semana passada, beneficiando cinco pequenos produtores.

As remessas de capiaçu foram doadas por um pequeno produtor do assentamento São Miguel (Sadia 3). Os produtores se uniram para pagar uma pessoa para fazer o corte da gramínea. Já o transporte foi feito de forma totalmente gratuita pela SEMMADRS, que dispõe de dois caminhões-caçamba (com capacidade de 15 toneladas cada) para atender às demandas do campo. Se fossem pagar o frete entre as duas comunidades, os agricultores teriam que desembolsar em torno de R$ 1,2 mil.

Os caminhões foram doados pela Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (SEAF) para o Município, no dia 11 de novembro de 2022. Em menos de dois meses, os veículos já haviam transportado 56 toneladas de insumos. Em menos de duas semanas de 2023, foram realizados os transportes de três cargas de capiaçu para as comunidades do Sadia 1 e Umuarama; uma carga de areia para reforma de baia de suínos, no Umuarama; uma carga de terra preta para a implantação de uma horta comunitária no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) do bairro Santa Maria, além de atender outros setores da SEMMADRS, como o viveiro municipal.

O secretário municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural Sustentável, Célio dos Santos, comemora a produtividade. “Em Várzea Grande, vivemos um momento muito propício para a agricultura familiar, em que os pequenos produtores estão empenhados em desenvolver suas atividades, nossas equipes, sob determinação do prefeito Kalil Baracat têm elaborado projetos que atendem às demandas e, além disso, contamos com várias parcerias que favorecem produção agrária no nosso município. Estamos muito felizes com os resultados obtidos e vamos continuar trabalhando para melhorar ainda mais”, assevera.

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Aproveitamento do suporte

Dentre os pequenos agricultores da comunidade Sadia 1, alguns já criam gado e outros querem começar a trabalhar com a bovinocultura, a fim de diversificar a produção. Vera Lúcia Pereira Reis é dona de uma propriedade onde, junto com o esposo, cria 24 cabeças de gado, galinhas caipiras e peixes. Ela já conta com 12 hectares de pasto, composto por braquiara e andropogon. Agora, já preparou o solo de mais um hectare para receber as mudas de capiaçu. “Vai ajudar no período de seca porque geralmente o pasto fica mais escasso e temos que gastar com ração, servir casca de mandioca para o gado”, afirma.

Já o agricultor José Domingos vive com a esposa em uma propriedade de 10 hectares, onde cria porcos, galinha caipira e trabalha com olericultura. Agora, pretende começar a criar gado e, por isso, aproveitou a doação e transporte gratuito de capim para iniciar o pasto. “Vou aproveitar a época de chuva para plantar capim. O pasto nosso vai dar uns 5 hectares. Um macinho desse pra mim começar já está bom porque depois dá para tirar mais ramos dele mesmo”, afirma.

A respeito do apoio ofertado pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural Sustentável (SEMMADRS), ele elogia, destacando que além do transporte de capim, já recebeu calcário e sua esposa participou de cursos. “É ótimo porque eu tenho plantação de mandioca, milho e a terra melhorou muito desde o calcário que nós ganhamos ano passado da Prefeitura. Temos vários apoios com orientações. Minha esposa já fez vários cursos. Tudo o que vem, a gente quer”.

A presidente da Associação de Produtores do Assentamento Nossa Senhora Aparecida 1, Lucineia Ferreira da Silva, destaca a relevância do trabalho da Prefeitura no fomento aos pequenos produtores rurais. “É muito importante para os agricultores da nossa comunidade estar ganhando essas mudas de capiaçu porque aqui para nós é tudo mais difícil, mas, com a equipe dando todo esse suporte fica mais fácil. Nessa época da chuva, precisamos de mudas e os agricultores estão muito empenhados em criar gado para produzir leite, fazer doces. Com a ajuda da Secretaria aqui conosco, dando esse apoio, o desenvolvimento da nossa comunidade é melhor. Estamos muito animados com essa parceria!”, comenta.

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Compromisso com resultados

Além de fazer o transporte das mudas de capim de forma gratuita, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural Sustentável (SEMMADRS) também fornece apoio no preparo do solo, por meio de tratores e grades aradoras com operador de máquinas e doação de calcário, além da assistência técnica fornecida por agrônomos e técnicos agrícolas.

“Vamos dar toda a orientação no plantio dessas mudas e acompanhar também o seu desenvolvimento futuramente, ver as falhas, ver as condições do solo. A comunidade Sadia 1 conta com um trator de 50 cavalos da Prefeitura para suporte no gradeamento do solo. Nosso objetivo é fazer com que de fato esses pequenos produtores tenham um resultado satisfatório com esse trabalho”, diz o coordenador de Desenvolvimento Rural Sustentável do Município, Jhonattan Ferreira.

Capiaçu

De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o BRS Capiaçu é um clone de capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum) de alto rendimento para suplementação volumosa na forma de silagem ou picado verde. Devido ao seu elevado potencial de produção (50t/ha/ano), também pode ser utilizada para a produção de biomassa energética. Tem porte alto (até 4,20 metros de altura), se destacando pela produtividade e pelo valor nutritivo da forragem quando comparada com outras cultivares de capim-elefante. A BRS Capiaçu apresenta maior produção de matéria seca a um menor custo em relação ao milho e a cana-de-açúcar. A silagem deste capim constitui uma alternativa mais barata para suplementação do pasto no período da seca.

Fonte: SECOM VG

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